MEU LIVRO

Esse é um livro que escrevi, mas que sem "plata", nunca pude editar. Queria compartilhar com vocês, se acharem que vale a pena, leiam e deixem-me seu parecer, vocês decidirão se devo ou não tentar editar.

Desde Já agradeço.

                                 Romance de um deserdado 

              “São essas coisas do destino. O que está escrito, ninguém apaga”. 

            Naqueles tempos em que os campos eram quase desertos. As imensidões das coxilhas formavam as grandes estâncias, onde o tempo passava lentamente, num cotidiano silencioso que até podia-se ouvir o murmurar dos ventos. 
          “Nestes fundões do Rio Grande o tempo encurta a distância e a vida quase que pára num belo quadro da estância”. 
Estas estâncias eram formadas por grandes sesmarias de terras, água e mato, onde o gado vivia livremente, desenhando a bela paisagem de um Pampa intocado. A casa grande feita no século passado trazia na sua arquitetura toques da escravidão. As paredes mais pareciam fortalezas de pedras num acabamento invejável, colocadas por mãos fortes com uma precisão cirúrgica. Com grandes janelas de madeiras de lei, embelezadas por frondosas roseiras e as belas flores dos jasmineiros que enfeitavam o parapeito das casas, trazendo no seu interior, uma bela sala de visitas, decorada com móveis e utensílios banhados a ouro e prata, além de finas cadeiras estofadas, rodeando uma bela mesa de jacarandá. Diversos cômodos, uma cozinha com dispensa, varanda e um alpendre onde a família reunia-se nas noites de luar, para embeber-se do orvalho que teimava em banhar os campos, trazendo o cheiro do pasto. 
            Os campos de pastagens fartas, desenhavam imagens no topo das coxilhas, quase que totalmente abertos, poucos eram os lugares em que haviam cercas ou aramados. As divisas, muitas vezes, feitas por demarcações de sangas, arroios, mataria fechada ou alguma cerca de pedra, erguida ao suor da escravidão. 
             No lado externo, ao fundo, um enorme terreiro recheado de árvores frutíferas, apertando-se entre os frondosos troncos das figueiras e a cerca de pedras que demarcava todo o potreiro, encostando-se até o galpão onde a peonada tratava os cavalos da estância. Mais ao fundo um pequeno potreiro, onde repousavam as vacas de leite. 

            Nesse tempo a peonada vivia pelas estâncias, no lombo da cavalhada, lidando com gado xucro em rondas e pastoreios, gastando o tempo da semana, para nos domingos juntarem-se pelos bolichos, bebendo e fazendo farra, em jogatinas de carpetas e tava ou em picholeios de carreiras, onde apostavam as minguadas platas que ganhavam durante a semana, mas sempre de olhos espichados para o lado do chinaredo que por ali marcavam presença. 
           Pois foi numa dessas estâncias, que numa noite fria daquele mês de agosto, no lusco-fusco de um lampião a querosene, sentada à beira de um fogão à lenha, acomodada na sua cadeira de balanço, dona Ruth quase dormindo ouvia estórias imaginárias daquela menina sapeca, que embalando suas bonecas de pano, sonhava em estudar para ser professora. Seu Romeu arrastando os chinelos, já metido em seu pijama de riscado, seguia lentamente na direção do quarto recolhendo-se para dormir. Na mesa grande da cozinha Tia Negra dava os últimos retoques na limpeza, deixando tudo alvinho para o outro dia, que começava cedo. 
             Lá fora não se ouvia um ganido de cachorro, nem uma prosa de peão, só o vento que teimava em bater na janela parecendo pedir para entrar e algum quero-quero goeludo assustado com as corujas que saiam das tocas para caçar. 

           Por anos as noites pareciam-se iguais. Em tempos de inverno recolhiam-se cedo para aquecer a alma junto às brasas de um fogão de lenha. Nas noites de verão recolhiam-se um pouco mais tarde, pois ficavam na frente da estância vendo o clarão da lua cheia nadar silente nas águas mornas do açude, ouvindo o ronronar da sapaiada que teimava em orquestrar a noite com cantigas de lamentos, contraponteados pelas cigarras cantadeiras que recitavam suas cantigas suicidas, enquanto as crianças brincavam de pegar vaga-lumes, para alumiar o fundo dos copos de cristais tão alvos que dona Ruth guardava com zelo. 
            De vez em quando, Tia Negra puxava pela memória, assustando a criançada com suas fartas estórias de almas andarilhas, daqueles que partiram, mas não se desligaram e por vezes rondam os ranchos vazios, vindo beber a angústia da noite e rever o que não puderam levar para o outro lado. 

            Passou-se o tempo, Eleonor foi ficando mocinha e já não sonhava mais em ser professora. Bonita e atraente com seus longos cabelos negros, chamava atenção por onde passava. Os brinquedos, as bonecas de pano, foram deixados de lado e a menina sonhadora via, aos poucos, seu corpo se transformando e já sentia o peso da realidade, da vida cotidiana, cheio de atropelos, de trabalho, de luta para sobreviver. 
           Dona Ruth queria-lhe como uma filha. Talvez a filha que sempre sonhara, mas o destino fora cruel e não lhe dera. Sempre preocupada com a menina aconselhava-a não se meter com peão. 
           - “Que esses que andam por aí como aventureiros, de estância em estância, sem um lugar certo, não têm futuro”. – dizia-a com se falar sereno. 
             Imaginava quem sabe, mais adiante arrumar casamento para Eleonor com o guri do Gaudêncio, fazendeiro renomado e compadre de alta estima, que tinha um filho moço, bem educado que fora estudar na cidade e que um dia se formaria em doutor. Mas tudo não passava de pensamento. 

           Naquela primavera as flores do campo pareciam estarem, ainda, mais belas. As pitangueiras vestiam-se de noiva exalando um cheiro de perfume da mais alta fragrância. Os jasmineiros copados degustavam o aroma da noite e transformavam em perfume para embelezar as casas. O cantar da passarada nas manhãs de sol, traziam o gosto da vida para o interior dos ranchos. A fumaça branca das chaminés desenhava belas imagens nas nuvens cardadas de um branco tão alvo, que pareciam terem sido recém lavadas e enxaguadas pelas mãos ágeis da Tia Negra. A peonada saía para as recolhidas, na mesma algazarra da cachorrada que brincavam por entre as sombras dos cavalos, levando consigo o gosto da vida, tão pacata, mas tão boa daqueles tempos. 
            Dona Ruth, era uma mulher de fibra. Herdara àquela estância dos Pais, que morreram quando ainda ela era menina. Fez-se uma moça forte e decidida, desde cedo teve que aprender as artimanhas da lida. Estudara nos melhores colégios e aprendera que na vida nada se consegue sem esforço, sem trabalho e sem coragem. Ensinamentos que tentava passar à todos que lhe rodeavam. 
          Um dia conheceu o seu Romeu. Um homem fino, elegante, cheio de galenteios, bem apessoado, do qual seus velhos Pais tinham muito gosto e um grande apreço, pois era filho de um Comendador da República, que também estudara em bons educandários na Capital, mas nada queria da vida, a não ser o sobrenome e o dinheiro de seus Pais. 
          Dona Ruth não pudera ter filhos. Tentou até um tratamento com um médico do estrangeiro, umas duas ou três vezes, mas não vingou. Fez simpatias, benzeduras, tratamento por conta, promessas, mas nada adiantou. Seu Romeu às vezes se queixava com o seu compadre Antenor, de não ter um herdeiro para deixar àquela linda estância, na falta deles. 
         Foi nesse tempo, entre um tratamento e outro, que Dona Ruth mandou buscar Eleonor, uma menina magrinha, com olhos negros, grandes, profundos e um longo cabelo, também, negro, mas muito mal cuidado, com seis ou sete anos de idade, sua afilhada, pois a Mãe tinha mais onze filhos para criar. 
         Eleonor nos primeiros dias sofrera muito a ausência de sua família, mas, aos poucos, o carinho de Dona Ruth, os doces da Tia Negra, fizeram com que a menina fosse se adaptando à nova casa, tão grande, tão bela, onde ela se sentia uma princesa. 
        Ganhava muitos presentes, um quarto só seu, roupas, calçados, até perfumes à madrinha lhe trazia lá do povo. Entrara na escola. Menina educada e estudiosa aprendeu rápido que a vida de quem estuda é bem mais fácil e encantava-se com as leituras dos livros e jornais que seu Romeu trazia lá da Capital. 
        Passou o tempo, a menina crescera e encantava a todos por sua beleza. Seus longos cabelos negros agora bem tratados e penteados, um rosto fino, meigo, quase angelical, lábios carnudos e um par de olhos negros tornavam o rosto da menina quase uma pintura, um desenho, desses que só existem em contos de fadas, que ela espelhava-se pelas folhas das revistas. O corpo ia ganhando formas e contornos de mulher. A pele queimada pelo sol escondia-se sob os panos de belos vestidos de chita, que às vezes ficavam apertados no corpo esbelto, causando alvoroço da peonada que se encantavam com tamanha beleza. 
        A menina às vezes se incomodava com tamanha algazarra por causa dela, não entendia na sua inocência o porquê de tanto alvoroço, pois ela só queria ser feliz, como qualquer outra pessoa.  Queria poder brincar com as demais crianças, ir à escola, visitar as pessoas em suas casas, mas nada Dona Ruth deixava fazer, pois sabia que a liberdade que a menina gostaria, poderia causá-la um prejuízo muito grande para o futuro. 
        Dona Ruth, de quando em vez, encilhava um cavalo e ia para o campo, junto com a peonada, ver algum terneiro novo que havia nascido ou alguma vaca que estava parindo, cerca para consertar, essas coisas da lida do dia a dia. Enquanto seu Romeu, quase imprestável, ficava por ali pela casa perambulando que nem fantasma, metido num pijama, lendo aqueles livros que ninguém sabe para quê. 

           Assim os anos foram passando e a menina tornara-se moça. Ajudava de igual para igual as serviçais da casa. Lavava, passava, às vezes cozinhava, varria a casa, arrumava as camas, sempre prestimosa. Sonhava um dia ter a sua casa, seus móveis, seu quarto de casal. Vaidosa como toda mulher, não deixava um dia se quer de se arrumar, pentear os longos cabelos, engomar os vestidos, passava pó no rosto e só saía da casa se estivesse totalmente linda, ninguém podia vê-la desarrumada. 
            Dona Ruth continuava saindo para o campo, em suas cavalgadas, mas agora era mais raro. Quando ficava em casa, muitas vezes ela mesma gostava de cozinhar, fazer seus pratos extravagantes, com bastante tempero, verduras, legumes e só comia carne branca. Depois ficava ali pela estância dando ordem para a gurizada, dos serviços que ela queria. 
        Uma manhã ela deu as ordens que costumeiramente dava a todas ali na casa e quando saía para recomendar a peonada no galpão, o capataz confidenciou-lhe alguma coisa, ela prontamente entrou na casa trocou de roupa e quando saiu já encontrou seu cavalo encilhado à sua espera e se foi para o campo. 
          Pois foi numa dessas saídas da dona Ruth, para resolver os problemas no campo, que o seu Romeu aproveitou-se da pobre da Eleonor. 
         Contam que numa manhã quente de verão, a moça estava solita numa sanga, que fica, até bem perto da casa, lavando uma trouxa de roupas, quando o infeliz chegou fazendo galanteios e promessas descabíveis. Aproveitando-se de sua autoridade e da ingenuidade da pobre mocinha, fez a sem-vergonhice com a coitada. Uns dizem até que ele pegou-a força. Um peão que andava campereando, casualmente estava próximo dali, viu os gritos da coitada. Chegou mais perto e deparou-se com o maldito agarrando a moça. Até pensou em ajudá-la, mas como era com o Patrão, jura até hoje que não viu nada. Ganhou um ranchinho lá na costa da restinga, mas vive de bico calado. 
         Eleonor voltou para casa, com os olhos rasos de água. Nunca imaginara que um dia aquilo pudesse acontecer com ela. Nos seus sonhos de menina-moça, sempre imaginara encontrar um homem que ela amasse, para entregar-se inteira ao amor que lhe merecia. Mas não, a um velho como aquele, um verme caquético, acima de tudo imprestável e que ainda ficou ameaçando-a, que se ela contasse alguma coisa, ele a mataria. 
          Ela, moça direita que sempre fora, não conseguia nem olhar mais para ele, quanto mais para dona Ruth há quem muito devia e tinha-a como uma mãe. Enquanto aquelas cenas teimavam em atormentar as idéias da pobre moça, ela foi fazendo os planos, tirando as suas próprias conclusões e viu que estaria chegando à hora de deixar para trás todos os sonhos, tudo aquilo que vivera naquela casa, pois não aguentava mais sufocar aquele segredo que escondia na dor de seu coração. Além de ter que conviver na mesma casa com àquele verme caquético que lhe lançava olhares de grandeza. 
      Passado alguns dias, com medo de aparecer barriga, Eleonor foi embora da estância. Sem mala. Sem nada. Deixando para trás as poucas coisas que tinha. 
       Até hoje não se sabe como, nem com quem. Se, foi um desses Peões que nas noites quietas teimava em fazer galanteios para a bela menina-moça, ou se foi alguns daqueles que viviam mandando chasques pelo Murcia, um piá estafeta que andava aqui pela estância, e que vivia de cochichos com a Eleonor. 
         Dona Ruth sem saber do acontecido. Nem desconfiava que aquela menina a qual ela criara com tanta estima fora desonrada, no auge dos seus dezesseis anos de idade e logo por aquele verme imprestável que ela tinha como marido. 
        A pobre velha quase enlouqueceu. Mandou a peonada procurar Eleonor por toda estância. E pelas estâncias vizinhas. Foi gente ao povoado. Até nas cidades mais próximas, andaram procurando Eleonor, mas nada. Ela havia sumido ou partido para muito longe dali, não se sabe como, nem com quem. 
        Sua ausência repentina causava inquietudes nos que ali moravam. Dona Ruth adoecera, precisou chamar o médico da Família, por longos dias não se alimentava direito, só chorava a ausência daquela que ela aprendera amar como filha. Nas noites ia para o quarto de Eleonor, pegava suas roupas, cheirava, conversava com elas. Olhava tudo ali, intacto. A pobre sumira sem levar nada, uma sacola se quer. Seus brinquedos, suas bonecas, seus sonhos, tudo ali. Só ela não estava. Mandou o velho Romeu avisar os Pais dela, que também desesperados procuraram-na por onde puderam, na casa de parentes, em alguns conhecidos de ambas as famílias e nada. Até o delegado foi avisado do sumiço da menina, fez suas buscas e também não encontrou nada. Onde estaria Eleonor?... 

        Passaram-se os anos, os campeiros temerosos com a matança que acontecia por causa da revolução, diminuíram as tropeadas. Diziam até, que lá pras bandas da fronteira, os Castelhanos degolaram mais de trezentos num só dia. Isso eu não sei se é verdade, mas que andavam matando gente, isso andavam. 
       Ao anoitecer as famílias trancavam-se nas casas e qualquer uivo de cachorro já era motivo de saltar para o vão das janelas, espiar se não era aquela gente da revolução ou algum fugitivo da correição. Num Jornaleco que seu Romeu trouxe do povoado, tem um retrato que mostra eles invadindo uma estância, perece que são mais de mil. Negros, índio, castelhanos, tem de tudo!
       Mas aqui na estância, continuava tudo na mesma. A vida pacata só tinha algum movimento quando vinha o Pedrerinha da Viola, um mascate antigo, trazendo no baú de uma aranha, puxada por um cavalo preto, aquelas roupas coloridas de chita e tecidos de fino trato que, segundo ele, são lá do estrangeiro, trazido pelas madames dos coronéis que usam nas festas do povo, nas missas da catedral ou nas rezas de procissão para pedir chuva, em tempos de seca. As notícias que ele trazia sempre chegavam com certo exagero e com três ou quatro semanas de atraso, mas era o único meio de saber de alguma coisa diferente. 
             Depois da morte do seu Romeu, que já vinha doente desde o sumiço da Eleonor, dona Ruth acalmou-se um pouco. Contratou um capataz para tomar conta do gado e um chacareiro, que construiu uma casinha lá no costado da sanga, onde as serviçais iam lavar roupa. 

        Numa tarde de Domingo, tudo estava calmo na estância. Era início da primavera. O arvoredo copado enfeitava-se de flores. Havia mantos de maria-mole colorindo o beiral de um corredor de chão batido, que se estendia coxilha à cima. As flores dos Ipês amarelos douravam os galhos, onde a passarada revoava com cantigas tão belas. Um João de Barro, solitário, reergueu sua casinha na cabeça de um palanque, cravado na porteira da mangueira, onde a peonada tratava a cavalhada da estância. Um bando de garças brancas estendia-se pelo beiral do açude, onde a água cristalina espelhava o manto azul de um céu, desenhado por figuras de nuvens alvas. A cavalhada pastava frente a estância e outros de corpo suado ganhavam a liberdade das encilhas vindo rebolquear-se no ponche verde da grama de trevo e maçanilha, onde rastejavam sombras compridas dos tarumãs e figueiras que rodeavam as casas. 
         Pois foi nessa tarde, que por entre as flores das marias-moles avistou-se um vulto. De longe, parecia uma mulher, num cavalo ao tranco lento, vindo na direção da estância. Com o sol deitado de um fim de tarde, parecia que aquela pobre não iria chegar nunca, de tão cansada que vinha. Ao aproximar-se da casa grande com a algazarra da cachorrada, é que dona Ruth foi avisada da pessoa que chegava. 
         Ao sair da casa, dona Ruth deparou-se com Eleonor, trazendo consigo, um menino lindo, com grandes olhos verdes, um sorriso encabulado e um jeito de homenzinho. Vestia calça curta com tirantes, uma camisa branca suja da poeira da estrada e um gorro, igualzinho ao que o seu Romeu costumava usar. 
       A mulher derramando-se em lágrimas abraçou-se à dona Ruth com força, numa mescla de carinho e gratidão, arrependimento e saudade. Tanta coisa passou-se na sua cabeça, naquele instante. Dona Ruth sensibilizada e ao mesmo tempo espantada, mas alegre, sentiu naquele abraço um alívio que atormentara aos longos desses quatro anos. Pois sentia por ela, um carinho, muito especial, desses de Mãe para filha e nunca entendera o porque, aquela menina que ela viu crescer brincando pela fazenda, um dia sem mais e nem menos ter partido, sem dar notícias, nem ao menos um bilhete. 
          Após abraçar Eleonor, dona Ruth pegou o pequeno Nico, Nicolau Alfredo, nome de batismo, porque registro a criança não tinha, abraçou-o fortemente e após beijar aquelas bochechas avermelhadas pelo sol da tarde, levou-os para dentro, onde um suco de pitangas colhidas a pouco refrescou aquele olhar inocente. 
       Eleonor mais uma vez, foi bem recebida na estância. Seu jeito simples, hoje de mulher sofrida, ainda trazia a meiguice de menina num encantamento poucas vezes visto, mas com olhos tristes de quem teve que ser Mãe, mesmo sem querer e com tão pouca idade. 
       Nico um menino esperto cheio de saúde e encantamento, em pouco tempo acostumou-se com as crianças e com os serviços, que toda criança, apesar da tenra idade, tem que fazer na estância. 
       Menino simples e bem educado, tudo o que pedia sempre tinha um ”por favor,” e quando recebia um “muito obrigado”. Apesar de tudo, na casa grande não havia regalias, trabalhava de igual para igual com as demais crianças. Desde pequeno já sobia de seu compromisso. 

     Os anos passaram rapidamente no aconchego daquela casa que Eleonor conhecia tão bem. Ela começou tomar conta de tudo na cozinha. Ajudava a Tia Negra nas lides do dia a dia. Fazia queijo, doces, pão de forno, ambrosia, era a responsável pela arrumação da casa e das camas. A vida parecia voltar ao normal. 
         Nico fora registrado, sem Pai é claro e batizado na capela do povoado, pois chegava à idade de ir para a escola, para isso precisou-se de registro com certidão como toda e qualquer criança. 
       De madrugada, antes de sair para a escola, trazia as vacas para a mangueira, que ficava atrás do potreiro, próximo da casa, para tirar leite. Laçava os terneiros, apojava as vacas, carregava os baldes para por o leite, fazia com orgulho todos os serviços para ajudar a sua Mãe, nas lides da mangueira. Ali mesmo tomava seu café matinal, um copo de leite quentinho, recém-tirado, adoçado com mel e pão ou guerrudo de milho, carinhosamente feito pela tia Negra. 
       Depois de soltar as vacas mansas, lavava os pés numa tina de água, calçava seus tamancos, feitos de corticeira e couro cru, pegava seu alfarrábio colocado num bocó e juntava-se as demais crianças numa carretilha que os levavam até a escola, que ficava a uma légua e pouco da casa grande da estância. 
       Menino esperto e inteligente. Tão esforçado que em pouco tempo já aprendera o Beabá. Fazia contas. Conhecia os números e enquanto voltava para casa contava tudo o que vinha por diante: bois, vacas, terneiros, tramas, palanques, árvores. 
       Sempre que tinha que fazer as lides, fazia-as brincando e estudando. 
      Foi num dia desses, de um inverno brabo que Nico voltou da escola com o corpinho ainda frágil, bastante debilitado. Veio o tempo todo deitado na carretilha. Não brincou, não sorriu, o rostinho avermelhado mostrava que o menino não estava bem. Uma tosse seca incomodava-lhe e ao chegar na casa grande, foi motivo de espanto para todos. 
        Nico estava doente, era Coqueluche. Recolhido ao seu quarto com uma febre muito grande o menino dormiu. Colocaram-lhe compressa com água fria. Deram-lhe: chá de laranjeira. Chá de casca de vergamota com mel. Fizeram-lhe benzedura, banho de salmoura em água fria e nada do menino melhorar. 
          À noite dona Ruth mandou Eleonor carnear um frango que estava cevando e fazer uma canja bem forte, com milho verde, moranga, raspasse um tutano de osso de boi e desse para o piá que ele melhoraria. Mas nada adiantou. 
Naquela noite ninguém dormiu. O menino passou tossindo, num suador de trocar as cobertas duas ou três vezes e falando coisa com coisa, sem sentido, para o espanto de todos. 
         No outro dia, de manhã cedo, apareceu na estância, como de costume, o Seu Sabino. 
       Seu Sabino é um bugre velho, tumbeiro, solteirão que vive de casa em casa e ali na estância tem até um quartinho pronto para ele. Sempre que chega traz seus ensinamentos de ervas, jujos, comidas e até brinquedo para as crianças. 
       O bugre velho vendo o menino naquele estado, viu de pronto que era coqueluche e que o remédio encontrava-se a umas duas léguas de distância dali da estância, era leite de égua. 
        E foi isso que ele foi fazer. No outro dia ele chegou com uma garrafa do dito leite, fez um chá bem quente com funcho e galhos de erva mate e deu para o piá. Foi tiro e queda. O guri que passara mal os últimos dois dias começou a melhorar. Já naquele mesmo dia, sentira fome e a febre baixou. 
Mais uma noite, esta bem mais tranqüila, outro dia e o guri já estava esperto de novo. Não queria mais ficar de repouso. 

       Seu Sabino ensinou muita coisa para o guri. Desde que chegou à estância, Nico apegou-se ao bugre velho. Antes pelos carinhos que ele fazia, depois um pouco mais crescido, pelos causos que o velho contava. Os brinquedos que ele ensinara a fazer, mas mais ainda pela presença de um homem, de um Pai que ele não tivera. 
Às vezes, logo que o menino chegara à estância, recebeu tanto carinho do velho amigo, que quando alguém perguntava: 
- Quem é teu Pai, Nico? - Ele baixava os olhinhos e respondia: 
- É o Tabino - Dizia em voz baixa, tanto era o apego do guri por aquele que os adultos não davam importância alguma e que vivia como andarilho pelas estâncias sobrevivendo de favores. 

       Naqueles dias haveria, carneada na estância. Antes de entrar o verão Dona Ruth mandava carnear um boi gordo e um porco, que era engordado, por meses, num chiqueiro lá próximo à mangueira de pedras. 
       Faziam varais de charques e salame, tiravam a banha para dar bóia pra toda aquela gente e as “frissuras”, o velho Sabino fazia o seu famoso “misturado”, uma iguaria jamais feita por alguém. Mas essa era a especialidade dele. Tudo o que ninguém queria: bucho, mondongo, tripa grossa, até o “sessenta folha”. O bugre velho botava tudo num panelão de ferro, fervia com bastante sal, pimenta, manjericão, tempero verde e até alguma urtiga ia junto, diz ele para melhor fazer a digestão. 
        Depois de pronto, “mandava pro bucho”, misturado com uma porção de farofa e uns tragos de vinho que mais parecia um vinagre. Logo em cima, de sobremesa, atracava uns três ou quatro mates virados, forte que nem pataço de mula. 
       Num final de tarde a gurizada juntamente com o Murcia, já andavam lá pelo terreiro amontoando lenha, puxando água, arrumando a mesa grande do galpão, ajeitando taquara para os varais, deixando tudo pronto que no outro dia cedo, antes do cantar dos galos, já estariam todos de pé prontos para a empreitada. 
        E assim aconteceu, o dia amanhecera com cara de sono. Quando os primeiros raios do dia começavam a botar a cara atrás dos cerros, a peonada já andava em volta com uma barrosa, uma vaca falhada, que deixaram na mangueira e que já vinha atropelando o laço, para baixo de uma figueira grande, lugar onde será estaqueado o couro. 
        Lá pelo galpão a gurizada atiçando lenhas no fogo onde um panelão de água fervendo já estava pronto e aos poucos a água era levada nas chicolateiras, para pelar um porco que ocupava todo o tamanho das tábuas feitas de mesa, embaixo de uma ramada. 
          O dia inteiro foi àquela algazarra. O final da tarde o galpão estampava os varais de salames, os ossos serrados, num panelão fervendo, com mandioca, a legítima vaca atolada. E a indiada por ali, na beira do fogo, tomando canha e debulhando uma viola campeira, pra comemorar aquele inicio de noite; 
          No outro dia a rotina voltou ao normal. Nico, depois do almoço, enquanto dona Ruth sesteava, andava lá pelo pátio, junto com os outros piás, fazendo seus próprios brinquedos. O guri era muito criativo, seus brinquedos sempre foram especiais. Criou grandes estâncias imaginárias, com gado de ossos, que juntava pelos campos. Os maiores e melhores tinham nomes: Lampião, Campeão, Chatinho, eram alguns de seus bois de canga. Tinha cavalos: Russo, Picacinho, tordilho, entre tantos. Além de bois e cavalos, tinha carreta, feita de caixa de marmelada, potreiros de uma estância fechada, que ficava atrás do galpão, na casinha das ovelhas. Na sua estância imaginária tinha sanga, açude, tudo feito com capricho, que às vezes lhe custava algum puxão de orelha, para não usar a água da tina onde se bebia. Os sabugos de milho são partes da tropa mais valiosa que ele negociava com os demais meninos, aumentando ainda mais a sua pequena grande estância imaginária. 
           Sempre que dava ou que podia, Nico dava uma fugidinha da estância e ia lá do noutro lado da restinga visitar o velho Pedro e a Tua Joana. O Velho Pedro vivia por ali, tinha um pedacinho de terra, uns gadinhos e uns dois ou três cavalos. Vivia ajudando nas lidas das estâncias, plantando umas rocinhas para sobreviver. Tinha um filho de pouco mais de dez anos que fora levado para ser jóquei e não sabiam nem onde se encontrava por esse mundão. Certa vez chegando lá, num domingo cedo, o velho estava mateando junto ao fogo de chão e pediu que o Nico escrevesse um bilhete para o guri, que ele ditou: 
- “Quando me sento para matear todas as manhãs, neste silêncio em que rumina a solidão, sorvo no mate o gosto amargo da saudade, se tua ausência fez em meu coração”. Quando contemplo os teus bastos num cavalete e o par de esporas bem novinho que te dei, renasce o sonho de ver-te um dia o meu filho, domando a lida, neste trono em que fui rei. 
Por onde andas o meu filho por estas horas? Talvez perdido no teu sonho de vencer, aqui mateando eu posso vê-lo galopando na vida simples do chão em que te viu nascer. 
O teu petiço no potreio anda inquieto, sentindo a falta de um abraço e de um carinho. Até o guaxo brincalhão que deste o nome, berra de fome, não sabe viver sozinho. A tua Mãe perdeu o brilho dos seus olhos, afaga as roupas e os brinquedos que deixastes, restam dois velhos e nosso rancho, sem alma, porque também nos fomos por onde andaste. 
Olho para o campo e pensativo, eu me pergunto: Qual o sentido desses anos de labuta? A nossa terra e os aperos que não usa, o sabiá canta, mas minha alma não escuta, é meu parceiro, meu amigo e meu futuro, me dói à incerteza, de por onde andarás meu filho. A noite chega e a esperança da oh! “De casa, para anunciar que voltarás em teu tordilho”. - 
        Foram as palavras mais tristes que o Nico escrevera na sua vida. Não sei se o bilhete foi entregue, mas a verdade é que o filho do velho Pedro nunca voltou. 

      Passaram-se os anos, o menino cresceu, a responsabilidade aumentou. Não precisava mais ir à escola, o que aprendera era suficiente para um peão de estância. Sua estância imaginária perdera-se meio ao “pafonal” que tomava conta, os brinquedos de criança, os jogos de bola, feitas de meias ou bexiga de porco, tudo era passado. 
      Nico não quis mais morar na casa grande. Vivia pelo galpão junto à peonada. Levantando antes do cantar dos galos para as recolhidas do dia a dia, fez do lombo do cavalo a sua escola. Laçando, pealando, curando terneiro, apartando gado. Nas lidas de todo o dia, junto à peonada era o orgulho daquele menino que chegara ali vindo não se sabe de onde. 
      Ganhou do Velho Chico seu primeiro par de botas, garrão de potro, tiradas de um potro baio que havia morrido de garrotilho, gordo de bom estado, redomão que nem havia sido amanunciado e que o velho Chico, infelizmente, tivera que sangrá-lo. Levou-o para o fundo da estância e fez o sacrifício, mas aproveitou tirando-lhe o couro das duas pernas, fez aquela belezura, que atadas com tentos de couro cru, na ponta e na parte de cima, veio ser um dos melhores regalos que o Nico já ganhara. 
        À noite, na volta do fogo de chão, encantava-se ouvindo causos, estórias de peleias e carreiradas. Fez de um couro de boi sobre quatro estacas, seu catre para as noites de descanso. O petiço que havia ganhado de dona Ruth para ir à escola, era apenas o seu companheiro pelos bolichos, nas fuzarcas de carreiradas de alguns domingos. Para os rodeios encilhava a capricho um tostado frente aberta, patas brancas cruzadas, crina grande, domado à capricho, que ganhara ainda potrilho, por ter ido bem à escola. 
       Numa dessas noites de lua cheia, clara que nem um dia, que o piá saiu para caçar tatu, com o João Brum. Era a primeira vez que se arriscava pelo mato á dentro. Um facão na cintura, um lampeão de bucha de estopa, três ou quatro cachorros e a coragem. João Brum como conhecia aqueles peraus como a própria palma da mão, se meteu pela mataria e logo a cuscada já bateram num bicho. Não é que o piá se botou moda a loco, no rastro da cuscaiada, cruzou uma sanga e do outro lado num descampado a cachorrada peleava com o bicho. Arrancou do facão e se foi para cima do dito cujo e já recebeu de pronto uma “mijada” na cara, não é que era um “zorrilho” e o piá afoito não sentiu nem o fedor que vinha da cachorrada. Naquela noite não prestou a caçada e até foi bom. Tomou um banho na sanga e voltou para o galpão, fedido que teve que dormir lá fora no pé de uma figueira. 
         Mas o pior ficou com o João Brum. Indío velho, desses tauras valentes que não refuga bolada e essa noite ele jura que não havia bebido nada, apesar de ele levantar uma canha, segundo o que ele conta: 
- Pois eu vinha tranqüilo, trazendo uma mulitinha que “os cachorro” tinha entocado naquele capão de mato lá da sanga do velho Bernardino. Tava cansando, mas resolvi limpar o bicho ali na sanga mesmo. Mas por aí tudo bem. Não é que quando eu tava “acocado” na beira da sanga, bem ali nas pedras do passo, começando a limpar a mulitinha, a cachorrada disparou, ganindo mato adentro, pensei vão bater noutro tatu. Mas não dei bola, continuei limpando, quando fui me levantar, aquela “coisa” saltou por cima de mim caindo do outro lado da sanga e já de “zóio estaquiado” cumas “oreia” grande, parecia um cachorro, mas assim do tamanho dum terneiro. Bueno! Larguei tudo lá, só “truxe” o meu facão, que desse eu não me separo. Tu sabe que eu não acredito nessas coisas, mas que aquele “oreiudo” era o o dito cujo, há isso era. 
O “dito cujo” que o João Brum se referia era o Lobisomem. Tem gente que não acredita que possa existir lobisomem, mas o modo como ele conta essa estória, às vezes até eu passei acreditar na existência do bicho, inda mais que há uns dias atrás o seu Arnor jura de pé junto que se topou com o orelhudo, lá no passo do Quinoca. 
        Mas foi pelos galpões que o Nico dominou a arte de trançar cordas, emendar laço, fazer rédeas, desquinar couro. Fez os seus próprios aperos. Pelas tropeadas, apartes e marcações, estava sempre pronto. Até quando a peonada encerrava a potrada xucra, na mangueira, para doma, estava lá, por perto ouvindo os conselhos dos mais velhos. Aprendeu como tratar um cavalo, como respeitá-lo, à hora de domar, de enfrenar, o segredo de tirar manhas, baldas, coscas. De lidar com bagual, tempo e jeito de domar um potro xucro. Sempre atento fazia dos conselhos o seu alfarrábio para a vida campeira que, a cada dia, tornava-se mais perigosa. 

        Certo dia era uma Segunda-feira. Antes da madrugada, trazer os primeiros raios do dia a peonada já estavam pela mangueira trabalhando uma potrada para a doma. Junto àquela bela tropilha viera um cavalo que era temor de qualquer peão. Um tubiano de marca borrada, arisco que nem capincho, ligeiro que nem quatiara, que dava coice até na sombra. Pois era com esse tubiano que a peonada andava envolta. 
        Lá do galpão, o capataz dera-se por conta que faltava um, entre os Peões da estância, que se atrasara para a lida e isso era imperdoável. Viu-o que o Pedro Bicho, um taura de quase dois metros de altura, uma melena tordilha que beijava a gola do pala, barba grande de esconder as tranças do barbicacho e um par de olhos ariscos, trazendo um azul, mais azul que o céu, mas que, tresnoitado, banhava-se de raios de sangue, de quem passa a noite na farra. 
Ao longe vinha ele, arrastando um par de esporas goeludas, tirando leivas de grama e tilintando no pedregal do terreiro. Pela rédea, trazia um baio rosado na encilha, suado e fogoso como quem viesse em disparada, de muito longe. 
Chegou à porta do rancho trazendo na flor do jaleco, um perfume de china nova, da farra da noite inteira. No canto da boca um tucho apagado, e nos olhos um ar preocupado de quem sabe o valor da sua pena. Mais outra vez atrasado, contrariando todas as ordens do capataz, que não perdoava atraso: 
        - Buenos dia, senhores. – Disse com uma voz calma. 
        - Buenas tarde – responderam – Por onde andaste parceiro? 
      - Meio perdido nos braços de uma china, meu senhor! – falou com convicção; 
     - Pois que pena! Espero que esta mesma esteja contigo, no lombo daquele Tubiano – falou o capataz, apontando o beiço, para o lado da mangueira. 
       - Se esta for a minha sina, eu não me faço de rogado, pelos braços daquela china, enfrento uma tropilha inteira! – respondeu-o, saindo de cabeça baixa, arrastando as chilenas, na direção da mangueira e já levando entres os dedos, além de braça e meia de um tento forte, um par de esporas sete dentes e no punho um a mango de couro cru. 
        Nico vendo aquilo sentiu um arrepio pelo corpo, de medo, de espanto, ver que um homem pode ser sacrificado por não respeitar as regras da estância. Tentou argumentar com o capataz, mas de nada adiantou. 
      - Aqui é assim, meu rapaz, compromisso é compromisso e a palavra é um tiro, depois de dada não se volta atrás – respondeu-o com ar de confiança e seriedade. 
      Chegando à mangueira, deu uma olhada sob a aba do chapéu. O bagual já vinha manoteando o cabresto, de venta rasgada, na direção de um palanque, numa fúria descomunal. Com um baixeiro na cara, sentava medindo forças com um cabresto de três tentos de sovéu torcido. 
      O tal de Pedro ali, ajoujando um par de nazarenas com toda a calma e maestria. Talvez arrinconado nos galpão da alma, trazendo emoldurado no quadro das retinas a imagem daquela china trigueira, pelo qual se atrasou, só por roubar-lhe um beijo na cancela. Por instantes passaram cenas daquela noite. O negrume dos cabelos, o perfume da pele macia. Tão airosa. Tão cheirosa. Tão sorridente que iluminava a escuridão de uma noite só com o lampejo de um sorriso. O quentume daquele corpo ainda trazia com ele e que era a razão maior daquele momento. 
        Levantou os olhos para o céu e fez uma oração caprichada pedindo toda a proteção divina, talvez nessa hora, a imagem da prenda amada viesse envolta ao manto de Nossa Senhora, mas o preço que tinha que pagar era muito alto, topar com àquele tubiano capincho, era quase que enfrentar a própria morte. Oiga-te sina baguala, que traz um pobre peão, há poucas horas enternecia nos braços de uma linda, como quem flutua no céu do amor e agora ali metido no fogo do inferno, bem prestes à enfrentar o próprio capeta. 
        Acendeu um tucho que trazia no canto da boca, tapeou o chapéu na testa e se enforquilhou no urco, trazendo a alma pesada e o coração derretendo-se pelo amor de uma mulher. 
         Nunca vi tanto ódio nos olhos de um triste peão. O amor que trazia no peito, pela china que deixara na volta de algum corredor, transformara todo esse amor em ódio. Não pelo cavalo, mas por sido cobrado na frente do resto da peonada, por um gesto tão simples, tão banal, que são alguns minutos de um tempo escasso. 
       Fez uma trança de crina, cruzou a tala do mango, tirou uma longa tragueada e mandou soltar. Foi à prosa mais longa, entre um homem e um cavalo. O tubiano naquela manhã estava endiabrado, mas o Pedro velho, esse sim era o próprio capeta. 
        Nunca ninguém ficou tanto tempo no lombo daquele capincho. Depois de corcovear como um louco se pegando na volta, volteado que nem caroço, com “as sete dente” mordendo do sovaco às virias, o cavalo se entregou, cansado esvaindo-se em suor, estaqueou-se, baixou a cabeça e ficou ali, parado, não havia espora ou mango que fizesse se mexer. Pedro alçou a perna e saiu caminhando de volta para a mangueira, limpando as borras de um pito que sujara a camisa branca com machas de um batom cor de pitanga, vindo de encontro a todos que o olhavam com espanto, por mais aquela proeza. 
       Nico vendo aquilo, espantado por tudo que o cavalo fez e um peão ainda parar encima, apesar do medo não agüentara a curiosidade. Achava-se pronto, para domar uma potranquinha tostada, patas brancas que havia sido amanonseada pelo próprio Pedro, seu grande amigo. 
        Lembrando-se dos conselhos e tudo o que havia apreendido. Achou ter chegado à hora de começar a sua vida de ginete. Conversando com muito zelo e respeito pelo animal, botou o bocal com muita dificuldade, pois não queria machucar àquela linda potranca, passou o baixeiro para tirar as coscas, sentou o basto, botou uma ou duas garras, apertou a cincha. Quando a potranca se estaqueou, parada, quieta, Nico sentiu medo, seria essa à hora de montar? – Ou então desistir! – 
        O corpo franzino, sem muita força, precisaria, acima de tudo, de coragem para agüentar a força de um cavalo. Mas recuar não era hora. Então, encorajado pelo Negro Juca, domador dos mais antigos, que já perdeu a conta de quantos cavalos domou e quanto tombo caiu e estava ali, junto com ele, para amadrinhar nessa difícil empreitada, que é montar pela primeira vez num cavalo xucro, que tu não sabe o que vai fazer, se corcoveia, se dispara ou se sai tranqüilo ao tranquito. 
        Ao colocar o pé no estribo a égua estremeceu. Com as pernas bambas ele montou. Pegou as rédeas juntamente com a correia do bocal e soltaram a Teatina, nome que ele havia dado àquela belezura de potranca. Foi três ou quatro corcovos e após um galopão desesperado campo afora indo esbarrar lá no corredor da frente, junto à taipa de um açude. 
         Nico olhou e não viu ninguém com ele amadrinhando. Sentiu que estava sozinho e que a vida lhe pregara uma peça só ele poderia resolver, não era hora de fraquejar. O piá ficara homem e como homem tem que saber sair das situações difíceis como aquela. Negro Juca sabia que a égua não corcoveava, pois já havia dado uns quatro ou cinco galopes com ela, mas precisava saber da coragem do menino. 
        Ganhou a potranca de presente, como troféu para nunca esquecer a sua primeira montaria. Depois desse galope, ainda teriam outros. Depois puxar de baixo, quebrar o queixo, sovar na rédea, essas perícias necessárias para o apronte de um bom cavalo. E foi assim, que ele começou sua vida, no lombo da cavalhada, de xucros e mal domados, tornando-se um ginete afamado pelo rincão. 
     Nico, pouco tempo depois, tornara-se mais um domador da estância. Campeiraço de mão cheia, apesar da pouca idade, já se sentia pronto para enfrentar a dureza desta lida e da vida do campo. 
          Seu futuro estava marcado. O que fazer um homem que nem Pai tinha? Mas pouco importava naquele momento, ter ou não ter Pai. Dona Ruth, velha e um tanto doente, não deixava a estância para se tratar. A Mãe, Eleonor, sempre a serviçal prestimosa, que de tudo cuidava, tudo fazia, mas ganhava somente cama e comida. Ele não tinha outra saída, a não ser um eterno peão, viver pelas estâncias domando, jogando, tropeando, cuidando dos tarecos alheios. Pois com essa idade, nem sonhar era possível e a estância de brinquedo se perdera no meio do pafonal que cresceu no fundo do galpão, que agora é a sua casa. 

           Naqueles dias chagava a primavera e na estância a peonada preparava-se para a castração da terneirada, que não eram poucos. Nos dias de castração juntavam-se a peonada de outras estâncias, os moradores do rincão e alguns que aproveitavam para vir comer e beber a vontade. 
         Desde cedo à peonada se iam para o fundão dos campos, juntado gado, num pelado de rodeio e ali formavam equipes de três ou quatro laçadores, apartavam um terneiro e tinham um tempo limitado para laçar, pealar ou derrubá-lo, depois de castrado e assinalado, para não ficar orelhano, o terneiro era separado e os bagos iam pra brasa, onde a gurizada botava salmoura e faziam a sua festa. 
           Assim passavam quatro ou cinco dias de lida. À noite tinha toques de gaita, de viola, jogo de truco, com àquela gente toda dormindo pelos galpões. 
Dizem que o Velho Inácio, estancieiro grande ali do outro lado do Itu, esse ano deu uma modernizada na festança. Umas duas semanas antes, da castração da terneirada, ele botou a velha dele num trem e mandou para a capital, para a casa de uns parentes que ela tem por lá. Mandou um piá, estafeta, descer rincão afora, anunciando que dali duas semanas ele iria iniciar o rodeio e para quem fosse todas as noites teria um “João Fernandes”, desses de ficar marcado na paleta da memória. 
          E assim fez, um dia antes, de começar a festança, foi lá no Povinho do Boqueirão e trouxe o vinte nove, cheio de china nova, dessas tipas rampeira, das de beira de corredor, mas lindaças que nem laranja de amostra, só capa de revista. Mandou buscar as filhas da Constança e outras que nem se sabe da onde, mas eram umas nove ou dez, tudo flor de percanta, peitudas e reboladeiras, mais perfumadas que cogote de moça véia. 
           De madrugada, antes dos primeiros raios do dia, já se ouviam o tropel dos cavalos, o alarido da gauchada e algazarra da cachorrada entre gritos de quero-queros, tudo se achegando pras bandas da estância. 
           Nunca se viu tanta gente disposta para uma lida de campo. Como era muita gente, o velho mandou o capataz dividir em etapas, eram três ou quatro de um lado, mais três ou quatro do outro, e assim foi. 
        A indiada meio louca, dizem que era uma ou duas e a terneirada tava pronta. Um apartava outro mangueava, outro pealava e já vinha o marcador, o castrador, despontava a orelha num sinal e soltava pra um fundo de campo. Em um dia fizeram o que costumavam fazer em três ou quatro. 
       O velho esperto mandou um piá, brochar os bois na carreta e encheu com aquelas “tipa”: umas de saia mais curta, mostrando as canelas, outras de pantalona, coisa que a indiada não conhecia no rincão e deu uma passada pelo meio da tropa para os olhos atentos da aquela indiada quase enlouquecidos, que as receberam abaixo de sapucay. Bom! Se o serviço já vinha rápido, imagina como ficou?... 
         Naquele dia o serviço foi completo e a única despesa que teve foi dar bóia e um baileco pra àquela indiada toda. Mas isso custou pouco, porque o gaiteiro ele mandou buscar o seu compadre João Milico, que não queria vir, pois estava sem gaita, mas arrumou uma gaita velha do filho do Nicanor e se botou pra fazenda. Ele toca pouco na verdade, mas bebe que nem gambá e depois de bêbado, qualquer arrasto de espora é música, ainda mais com àquelas tipinhas novas, por ali se refestelando. 
       Antes de começar o farrancho, João Milico andava por lá meio abichornado, contando para um e para outro como perdera a gaita. Quando o velho Inácio apareceu na porta do rancho com gaita branca, novinha em folha, que ele trouxera lá do povoado, a alegria do gaiteirinho não dá pra descrever, ainda mais do modo como ele perdera a gaita velha, agora ganhar uma gaita nova, nem acreditava! - Ali mesmo já atravessou aquela branca no peito, calçou o garrão num baldrame e abriu de toda goela pra iniciar a festança. As tipinhas começaram chegar aos poucos, de longe já se sentia o perfume, para o alvoroço da peonada.                 Tinha uma ruiva, cabelo de fogo que eu acho que era a chefona de todas e diz às más línguas que era a irmã do Januário, que veio na frente, toda vestida de branco com os beiços bem vermelhos, desses da cor da pitanga. Entrou na porta e se foi pro lado do véio Inácio, desfilando um “islaque” bem apertado, deixando àquelas pernas de “morcilha” a amostra de todos, dessas que dá para encher um baixeiro. Logo atrás uma peticinha, gringa, branca que nem papel de cigarro e já chegou fazendo alvoroço com a peonada, umas unhas grandes pareciam unhas de tatu, voltada para baixo e num vermelho feito sangue. Bom! As outras ou nem falo, quando chegaram, foi o rebuliço da peonada. São as mesmas tipas que outro dia desses estiveram lá pela estância dos Vargas num baile de cola atada. 
E assim a festança se foi até no outro dia. 
       Mas de manhã cedo a peonada já estavam, envolta da tropa por mais, três ou quatro dias, até o fim da lida. 

        Nico chegara à maioridade. Com seu porte físico, barba rala, bigode preto, sempre bem aparado, aos poucos, lembrava em semelhança a seu Romeu. Sempre pronto e interessado em tudo. Nico ganhou o respeito da peonada. 
Certo dia foi chamado por seu Álvaro, capataz que há muito tempo cuidava da estância, para chefiar a comitiva que levaria uma tropa para as charqueadas, que ficava num povoado lá pras bandas da capital, seriam de três à quatro semanas de estrada. Era responsabilidade demais para um moço que mal completara a maioridade. Mas também era um desafio e ele não podia falhar. 
        De tardezita, depois que fizeram à recolhida, entre as paredes de um galpão velho fumacento, aos pés de um fogo de chão, sorvendo um mate feito a capricho, Nico recolheu-se para dentro de si, num ar pensativo e ao mesmo tempo preocupado, riscava e desenhava no chão batido do galpão. No seu pensamento demarcava distâncias, trajetos, passos, sangas, riachos, o que a tropa faria para chegar ao destino final. Colocava os lugares de pousadas, as aguadas, quem faria o ponteio, a culatra, quantos peões seriam necessários para tamanho desafio. A cada gole de mate a preocupação aumentava. Nem a algazarra da peonada contando causos, bravuras, mentiras e pacholeios, não desviava a atenção que visivelmente era percebido por todos. Enquanto cuidava de um “costiliar” de chibo que pingava graxa nas brasas, buscava no lusco-fusco de um candeeiro desenhar mapas na sua imaginação. 
        A noite caiu mais cedo. Após a janta, foi revisar todo o mantimento, que partiria antes da tropa, com o cozinheiro, Nico revisou suas cordas, laço, rédeas, buçal, peiteira, arreios, pelegos, badana, poncho, chapéu. Tudo pronto. Então atirara o corpo sobre um catre de pelegos e parece que cochilou. Só parece, porque se revirava a noite inteira. 
       - Cinco horas! – gritou o cozinheiro – já pronto para a partida. Em prontidão a peonada saltava das camas. Enquanto um preparava o mate, os outros na mangueira botando a cavalhada na forma. Uns buçalados já esperavam pela encilha no parapeito do galpão; 
        Aos poucos foram saindo na direção à tropa que o Bonifácio e mais dois guris, rondaram a noite toda. 
        Assim se bandearam com a tropa estendida. De vez em quando um boi corneta refugava e já voltava abaixo de laço e boca de cachorro, por sinal, cada cachorro valia como um peão, pela qualidade e presteza destes cuscos. 
           O primeiro dia foi tranqüilo. A tropa com passos firmes chegou ao destino da primeira pousada, antes do horário previsto pelo chefe da comitiva na Estância do Negro Inácio. Lugar de boa aguada, um coxilhão limpo para fazer uma ronda, galpão e mangueira para os cavalos da encilha e os que vinham para a troca de arreio. A ansiedade da noite anterior já não existia mais. A peonada se esbaldava num costilhar de novilha, assada ali junto ao fogo de chão, um regalo do Velho estancieiro, que churrasqueava junto com a peonada, numa roda de mate, com cantiga de viola, joga de truco, causos e pacholeios da peonada. Começou-se bem o primeiro dia, que se encerrava. 
          Na manhã seguinte, a rotina começou cedo. Durante a noite numa briga, um dos bois havia machucado à paleta e tinha dificuldades de caminhar, teve que ficar. Então Nico estendeu a tropa, lentamente. O tempo que vinha firme começou a mudar. Ergueu-se uma barra, de nuvens negras, pra banda oriental. A tropa que vinha ao tranquito pressentiu o temporal, batendo de encontro a um vento forte com poeira, tentavam dispersar e buscar um mato para abrigo. 
      Nessa hora não há Santo que ajude. A ventania foi se transformando em tormenta e ficando mais violenta. A peonada com medo que a tropa estourasse, foi contornando de longe, sem apertar muito. Após a ventania que varreu os campos, deitou árvores e o macegal, bateu-lhe água, chuva forte, pesada, que mal dava para enxergar à frente, com raios acolherados. A tropa toda ali parada no meio do vendaval, com gado berrando, cavalos relinchando, cachorros ganindo, homens com medo, formou-se um quadro de tristeza e preocupação. A água descia da encosta dos cerros formando sangas nos valos. Crateras se abriam, rasgando a terra numa força brutal. Um banhadal se formara na frente da tropa e ainda tinha a restinga do Passo dos Loucos que certamente estaria bufando, com a água fora da caixa. 
           A chuva deu uma calmada e a tropa pegou o rumo novamente. Mas o que fazer? – Prosseguir ou não? – Será que a sanga dá vau? – E o tempo perdido no meio do temporal? - Essas eram algumas perguntas que teimavam vir à cabeça do Nico, naquele instante. 
         Um dia a mais ou a menos para a tropa chegar não era problema. Mas o cozinheiro que tinha saído na frente, para esperar na estância de D. Maneco, há duas léguas depois do passo, lugar combinado para o pouso da tropa. 
         Pouco adiante, cerca de légua e meia, já dava para ver a sanga cheia, certamente não daria vau para a tropa. Seria perigoso botar o peito n’água e perder algum boi. Foi aí que a sorte esteve do lado dele. Antes de chegar ao Passo, na beira de um capão de mato fechado, estava o cozinheiro com o acampamento montado. Nego Bira, cozinheiro de anos em tropeadas, quando viu a viração do vento, pressentiu a grandeza da tormenta e que pegaria a tropa de frente, portanto não chegaria ao Passo no tempo determinado, então resolvera montar posto por ali mesmo e esperar os companheiros. 
         Nico estava aliviado. Agora era encostar a tropa, montar ronda e descansar. Nada mais haveria para fazer. 
         Na manhã seguinte, a madrugada trouxe os primeiros raios de um dia que já começava bonito. A sanga havia baixado e a tropa passou tranqüilamente. Os primeiros raios de sol desenhavam um céu muito azul, esculpido por grandes nuvens brancas, que pareciam terem sidas lavadas e cardadas pela mão Divina e já os pegaram do outro lado do passo, com a tropa tranqueando firme. 

         Após duas semanas de poeira e estrada, o cansaço já tomava conta de todos: homens, cavalos, gado, cachorros. O pensamento estava somente na entrega da tropa no local e dia combinado, de voltar à estância para as lides do dia a dia da peonada. 
        Nessa noite, a peonada, que vinha cansada ainda ficou tresnoitada, pois não é que suscedeu um “caso” muito estranho com o seu Moreno. Seu Moreno era um “nêgo véio” de seus sessenta e tantos janeiros, tropeiro das antigas, que fez a vida sempre no recals dos cavalos levando tropas por esse mundão afora ou chibiando matungo lá da banda oriental, sempre dormindo campo afora ou pelas tafonas, pois coragem tinha de sobra. 
        Conta ele que, nessa noite, quando fazia o seu quarto de ronda, sob o véu de uma lua cheia, mas clara que um dia, num descampado vazio que costeava um capão de mato fechado de um lado, um coxilhão do outro e mais ao longe as abas de um cerro grande. No coxilhão limpo, um cemitério, com uns quatro ou cinco jazigos meio caído, volteados por uma cerca de pedra, também caída. A gadaria ali, calma, repousando. O único som que se ouvia era do vento norte chiando no macegal e de vez em quando um berro de algum sorro no topo daquele cerro. 
        Seu Moreno apeou do zaino na parte baixa da ronda, quase na costa do mato e enquanto fechava um “baio” molhava a palavra num trago largo de canha. Conta ele que sobre a anca do zaino enxergava longe, toda a tropa deitada e ao fundo aquele cemitério. Não é que já estava quase na hora de trocar a ronda quando de longe avistou caindo do céu uma bola de fogo, muito vermelha, parecendo esses fogos feitos com lenhas de angico, que vinha rodeando e caiu lá junto aos túmulos. Ele arregalou bem os olhos e ficou ali sem saber o que fazer.            
            A cachorrada que estavam por ali veio se deitar junto à sombra zaino. Uns ganiam, outro uivavam, o zaino bufava. Ele como é um taura que não recua, arrumou uma adaga prateada para frente da guaiaca, alçou a perna no zaino e foi ver mais de perto o que estava acontecendo, quando para seu espanto, segundo o seu relato, dentro do cemitério, uma mula, com a cabeça de fogo, corcoveava encima dos túmulos. Ele deu de rédeas e chegou numa disparada ao acampamento acordando todo mundo para ver aquilo. Mas nisso enquanto ele vinha, naquele galopão de apressado, diz que a mula desceu num tropel para dentro do mato, deixando pela coxilha um risco de fogo. Foram todos lá, não acharam a tal de mula, mas ainda havia fogo queimando o pafonal do cemitério.                                  Ele jura de pé junto que tudo é verdade, mas o borração de canha que ele pegou cheio estava vazio. 
      Daí por diante, ninguém mais dormiu naquela noite. 
        Devido a isso, nesse dia a tropa saiu cedo. Légua e beiço depois, do alto de um coxilhão, avistou-se um ranchinho, de pau a pique e santa-fé, na beira de um corredor. Na parte da frente havia um pequeno bolicho, onde praticamente, vendia-se cachaça e fumo em rolo. Alguns biscoitos, rapadura e alguns caramelos. Dizem pelas redondezas que já fora saqueado várias vezes por vândalos, ladrões de gado e cavalo, chibeiros da fronteira, esses tipos que andam pelas estâncias, fazendo roubos e arruaças. 
       Enquanto a tropa encarreirava no corredor, Nico não se conteve e chegaram para pegar um borrachão de canha, uns quilos de fumo em rolo para a peonada e para saber das notícias, que corriam de boca em boca. 
       O bolicheiro, um índio velho meio desconfiado, não quis dar muita conversa. Serviu a canha e sem muitas delongas foi logo fazer outros serviços. Quando o Nico já estava de saída na cancela, ouviu uma voz suave e doce, que falava com sua mãe no oitão do rancho, estendendo umas roupas no varal Antes de montar a cavalo, ainda deu mais uma olhada, viu uma menina sorrindo, na inocência de seus treze ou quatorze anos. Linda, com um par de olhos grandes e delicados, sorriso claro, com um jeitinho de debochada, que antes de sair correndo para esconder-se, ainda lhe atirou um olhar, deixando escorrer sobre suas costas, os longos cabelos negros que desciam até a altura da cintura. 
        Foi para derrubar um pobre peão. Alcançando a tropa, ele juntou-se com aos demais peões sem nada falar. Levara consigo aquela imagem, recheada de perguntas, sem respostas. 
        - Como poderia viver uma menina, num lugar tão distante de tudo? - O que seria dela, com tantos ladrões a solta naquele rincão? - Qual o seu nome? – Quantos anos ela teria? – Será filha do bolicheiro? – Tantas eram as perguntas que ele não se preocupava mais com a tropa, agora seu pensamento ficara lá, naquele bolicho pobre, quase sem nada, na beira de um corredor. 

         Mais uma semana e a tropa chegou ao seu final. A boiada foi entregue do jeito que o capataz havia recomendado. Nada foi perdido: nenhum boi, nenhum cavalo, nenhum cachorro, tudo conforme o planejado, só o seu coração, esse sim, esse parecia em pedaços. 
         Era hora de repousar, descansar, visitar uma dessas casas de moças. Tomar um bom banho. Aliviar os cavalos, para o dia seguinte começar a volta para a estância. 
        Nem a farra da peonada. Nem as moças da “Siá Filoca”. Nem o cumprimento de um ofício. Nada chamava a atenção daquele que trazia guardado nas retinas, a formosura de uma imagem inocente. Seu corpo estava ali, mas o pensamento muito longe, tão distante que foram os minutos, as horas, os dias mais longos de sua vida. 
       Na manhã seguinte ele levantou cedo, chamou a peonada que passaram a noite de farra, encilhou o tostado e começou sua volta. Num galopão de estafeta, de mandar bilhete em dia morte, deu o que tinha de seu cavalo, parecia que na sua cabeça não havia outra imagem, a não ser o sorriso daquela menina linda, que o encantara. 
        Dois dias depois, foi o tempo que ele levou para chegar novamente ao bolicho. Do alto de um coxilhão avistou o ranchinho e num sorriso, o único em sua volta, esboçou um olhar de alegria e contentamento. Esporeou o tostado, cansado da esfrega, indo esbarrar quase na porta do bolicho. 
         Mal atou o cavalo e dirigiu-se ao balcão, como se estivesse com sede, não sede de bebida, porque ele pouco bebia, mas sede de notícias, de curiosidade para saber quem era a menina que outrora ali estava. 
       Mandou encher um borrachão de canha, pegou um naco de fumo em rolo, um copo de canha pura e sentou-se junto ao baldrame, num banco comprido, onde mais dois índios por ali estavam. Puxou uma xerenga e começou a fechar um pito, lentamente, como quem não tivesse pressa para nada. Começou a indagar de “cosa ou outra”. Mas o bolicheiro, de pouca conversa, mal dissera o seu nome, viu um ou outro chamá-lo de Tocaio, talvez esse fosse seu apelido. O            Bolicheiro cuidava-o de canto de olho e às vezes calava-se em silêncio como quem quisesse escutar alguma coisa vinda da parte do fundo do bolicho. 
           As horas foram passando, a peonada foi saindo. Pegaram o rumo da estância e nada do Nico se mexer para ir embora. Saía pra fora, voltava pra dentro, dava uma olhada no corredor, como se estivesse procurando alguma coisa. Sentava. Levantava. Mas não tinha coragem de perguntar da menina que vira, ali no oitão do rancho. 
         Passado algum tempo, achou melhor ir embora. Alçou a perna no pingo, sentindo um aperto no coração. Triste, chateado, cavalgava um pouco e olhava para traz, na busca de alguém que ele nem sabia quem era, até sumir-se na solidão dos campos, deixando ao longe o velho bolicho e alguém não sabia quem era. 

       Foram os dias mais tristes de sua vida. Voltou para a estância e tanta pergunta atormentava-lhe as idéias. 
         - Porque se encantara por uma menina que nem conhecia? - Porque pensar tanto em alguém que nem sabia o nome? – Será que a veria novamente? – Se lá há tantos ladrões, bandidos que já saquearem o bolicho outras vezes, será que não irão levá-la? – perguntas, perguntas e mais perguntas. Só isso lhe vinha à cabeça, sem repostas. 
       Na chegada à estância a peonada entranhou o jeito dele. Sempre quieto, pensativo, olhar distante. De manhã, à tarde, à noite, seu pensamento só estava nela. 
          Ficou uma semana sem sair para o campo, para as serventias da lida. Recolhido dentro de si fez das paredes toscas de um galpão velho fumacento, seu confessionário. Desenhava poemas pelo chão batido deste santuário. Até da viola, tentou tirar algumas notas, no intuito de fazer cantiga à sua bela, desconhecida amada. 
       Nas tardesitas, enquanto o sol estendia um poncho de carnal vermelho, esculpindo imagens nas brancas nuvens cardadas, ele sentava-se num travessão de cancela e ficava olhando o horizonte, até onde o olhar se perdia. Pela estradinha de chão batido, seu pensamento cavalgava, indo de encontro daquela que num gesto delicado, lhe abanara e num sorriso lindo lhe encantara. 
        O que fazer? – Tantos planos. Tantos sonhos. Contar para alguém o que estava acontecendo? – Mas para quem? – Quem entenderia o que ele estava sentido? – Contar que vira uma menina que o encantara, mas que não sabe quem é? - Se irá vê-la novamente! – Que tem doze ou treze anos, uma menina, quase uma criança? – Será que alguém entenderia o seu sofrimento? – Talvez! 
          Naqueles dias a tristeza era tanta que nem a estória da assombração que apareceu lá na sanga da tia Joana mudou o rumo do seu pensamento. Talvez a verdade sobre essa história da assombração nunca virá à tona, mas eu sei o que aconteceu. E vou contá-los, para acabar com essa coisa de outro mundo. 
          “Naquela tarde o Negro Murcia, que não morava mais na estância, pois fora viver numa casinha lá na costa de uma restinga, próximo da Tia Orora, vinha passando ali pela sanga, onde as mulheres lavam a roupa, entre as pedras de uma água muito alva e corrente, de poço fundo, e resolveu tomar um banho para espantar o calor, antes de rumar para a casa. O Negro é preto que nem carvão e magro que nem taquara parece um desses, pau de fumo, que a gente enrola fumo em corda. Pois é, o coitado, não vendo ninguém tirou toda a roupa e deixou numa pedra fora da sanga para não molhar. Atirou-se na água, parecia um muçum, nadava, mergulhava tudo em paz. Pois não é que naquele instante passava por ali, voltando de uma roça, o Zé do Ivo e o Rui da Dorvala, dois sujeitos muito espertos, e resolveram aprontar para o coitado do Murcia escondendo a roupa dele numas macegas logo adiante e ficaram lá olhando a felicidade do negro naquela água geladinha. Nesse dia, duas serviçais aqui da estância, resolveram ir lá lavar uns lençóis brancos que a dona Ruth havia comprado e tinha que tirar a goma. O negro vendo que as duas se aproximavam escondeu-se numas pedras, pois de onde ele estava não avistava as roupas que havia deixado na beira da sanga. As serviçais lavaram os lençóis e deixaram no quaro numa grama verde um pouco mais acima da sanga e foram se molhar na água corrente num local mais raso, quando vira sair de dentro do mato um vulto preto, enrolado num lençol branco, correndo coxilha acima. Elas não pensaram duas vezes, era uma assombração, saíram em disparada no rumo da estância, gritando que nem loucas, assustando toda a peonada, que bateram a mataria toda e não encontraram o lençol novinho de dona Ruth” - e até hoje, a história dessa assombração ronda a sanga da Tia Juana. 
        Nico naquela tarde não quis sabe de nada, não quis nem acompanhar a peonada num João Fernandes na casa do véio Piola, lá nas barrancas do Itu, na Picada “dos Loco”. Dizem quando o véio faz baile nem a lua aparece. E isso eu acho que é verdade. Pois essa noite era um breu de não se enxergar um palmo diante dos olhos. A indiada meteu-se campo à dentro e não sei como, mas chegaram ao farrancho. 
       A coisa ia tranqüila: dançavam, bebiam, gritavam. Pacholeios e algazarra para a felicidade de todos, até que veio um comentário, entre cochichos e olhares. Pelo vão da janela alguém avistou lá fora encostado num mouro negro, fechando um tucho, metido num baeta vermelha, o negro Carmo. 
       O Negro Carmo, pra quem não conhece, era afamado no rincão pela valentia. Uns dizem que o negro é castelhano, outros dizem que não é castelhano que ele apenas viveu no lado oriental por anos depois de matar uns três ou quatro numa peleia. Isso eu não sei. Só sei que o negro é de assustar, é de fazer criança dormir sem ter sono. Corpo forte, quase dois metros de altura, acostumado a bolear touro num fundo de estância, bigode grande emendado à costeleta e um par de olhos negros sombreados por duas sobrancelhas que mais parecem dois mandorovás. Essa era a estampa do negro. 
        Fechou um baio, acendeu, deu uma longa tragueada, tomou o último gole de um borrachão de canha, deu cuspida numa macega e se encaminhou lentamente rumo à porta do rancho, arrastando um par de esporas e a tala de um mango que trazia pendurado no cabo de uma adaga, cabo de ouro e prata, mais cortadeira que língua de sogra. Um chapéu preto de abas largas, bem na nuca e o barbicacho de prata enganchado na parte de baixo do beiço. Uma bombacha de dois panos dessas de varrer o salão. E um poncho negro atirado pra traz, deixando amostra aquele avesso de aurora. 
           Chegou, pagou entrada e entrou. Não falou nada, encostou-se num canto do rancho perto da copa e ficou olhando o baile. De vez em quando tirava uma tragueda e tapava de fumaça. O gaiteiro veio, o João Milico, atracando vaneira, uma no rastro da outra, faceiro com a gaita nova. 
        Depois de uma hora e tanto naquele tranco, ele fez um floreio e deu uma mudada, atracou uma rancheira dessas galopeada e a sala encheu. Nisso passa pelo negro uma tipinha filha da Nicácia se reboleando que nem minhoca em terra quente. O negro deu uma balançada no corpanzil, uma olhada de cima a baixo, pegou a tipinha na passada e saiu atrotesito no embalo daquela rancheira. A coisa ia tranqüila até a terceira volta. Por onde o negro passava abriam valetas com aquele par espora. Numa cruzada ele se empolgou abriu demais a passada e enganchou o vestido de uma “veia” e foi rasgando de cima a baixo, trazendo chita, com couro de canela, pêlo e tudo. A “veia”, de pronto, abriu o peito e botou-lhe a boca. O negro, desaforado e flor de bagaceira, parou de sopetão, empurrou a tipinha que já adormecia no peito do bagual e disse num portunhol arrastado, mas para todo o mundo ouvir: 
    - Acho que enganchei minhas espuelas na cola duma guecha que ficou relinchando - 
     Mas para quê? Aquilo foi que nem cutucar marimbondo. O Chirú véio que estava com ela, um castelhano de cara enferruscada com um bigode grande emendado com a costeleta, de pronto arrancou uma garrucha de dois canos, dessas que se carrega pela boca e meteu de baixo para cima. Berrando os dois canos ao mesmo tempo, que cruzou fazendo estrago no chapéu de negro, abrindo um rombo no santa-fé do rancho que começou pegar fogo. 
       O negro deu uns dois passos para traz e arrancou da adaga, abrindo um clarão na sala. Já lhe saltam mais quatro ou cinco: de mango, facão, adaga e até a tranca de uma porta, veio abrindo picada. Mas o índio não era muito assustado. Com o poncho foi tirando os estouros, talhos e pontaços, recuando na direção do gaiteiro. O gaiteiro vendo o mundo vir a baixo, se largou num vão que tinha entre o baldrame e a costaneira, que garanto, que nem esses cuscos de madame passava, mas ele passou, mas teve que deixar a gaita. O negro embaixo do mau tempo, com o poncho em tira viu alumiar o fio de um facão, marca formiga, que vinha sedento por sangue, não teve outra saída. Quando o pontudo desceu de cima para baixo ele meteu aquela belezura de gaita que se apartou em duas, ficando com as ilheiras na mão e no mesmo impulso se largou por uma janela saltando lá fora, caindo de pé, se bandeou noite adentro na direção do Passo. Nunca mais ninguém o viu. Só se ouve falar na tristeza do João Milico, perdera duas gaitas, isso é demais para um gaiteiro, que ficava famoso no rincão pelo azar do coitado. Do negro nunca mais se ouviu notícias. 

         Nem essa história que a peonada trouxe, recheada de picholeios, não mudou o jeito do Nico. Nem as noites quentes de luar, enquanto via a indiada sair para caçar tatu. Nem a luz coada de lua cristalina, que desfiava imagens por entre os braços da figueira, lhe chamava atenção. No seu silêncio, ele desfiava de uma coplita campeira, dessas que sai do fundo da alma com gosto de solidão, com a dor que teimava arder dentro do peito, assistido por uma platéia de estrelas, onde, de vez em quando, uma delas se desgarrava indo levar um pedido dele, a quem estava tão distante, quem sabe olhando para o mesmo céu e fazendo o mesmo pedido. 
        Dia após dia foi à mesma coisa e cada vez mais triste. Tudo era sem graça, o trabalho, a lida, as domingueiras, as carreiradas, as modas de viola. Tudo. Tudo perdera a graça. 
       - A manhã se espreguiça com cara de sono no fio do horizonte, desde “três-ontonte” que a chuva caía se trégua pra gente, mas hoje parece que o sol se enforquilha na anca do dia e a alma vazia recorre os sentidos que andavam ausentes. A cuia descansa guardando os segredos que eram para ela e num vão da janela, réstias se cruzam com jeito de vida, esporas reclamam soltando nas pedras e poças de água, todas as mágoas desses três dias distantes da lida. 
É triste parceiro para um índio campeiro ficar no galpão, nem o chimarrão aquecem os sonhos que são estradeiros. Só a voz do silêncio repousa inquieta na alma da gente e o campo pressente que a lida chama, depois do aguaceiro. A cavalhada de pêlo encharcado da chuva que veio estranha os arreios, dos dias de forlga, boleados na graxa. É linda a cantiga do vento assoviando na boca do mato e feio o retrato da sanga bufando ainda fora da caixa. No verde estirado há cheiro de campo e da flor dos trevais e pelos banhadais, mil gritos de vida, alerta o campeiro, quem faz o sustento no suor do cavalo, precisam de espaço, juntar os pedaços que o tempo espalhou depois do aguaceiro. - 

          Certo dia, cansado da dor da saudade, ele tomou coragem, encilhou um tostado bico branco boleado na graxa, vestiu uma pilcha domingueira, um chapéu preto de aba caída sobre o olhar vazio e triste, botou o pingo na estrada, cheio de esperança em encontrar a menina dos seus sonhos. 
          As noites lhe pegavam batendo estribo. Às vezes fazia pousada em alguma estância, dava descanso ao cavalo e voltava para a estrada, novamente. 
Numa tarde quente do verão que tomava conta das coxilhas sapecadas pelo sol, avistou de longe o ranchincho adormecendo, nas ressolanas que judiavam daquele rincão. Num tropel desesperado aproximou-se do rancho, que estava inerte ao relento, com jeito de tapera. Portas e janelas fechadas, num silêncio de velório. Bateu palmas, deu Oh! De casa e nada. Bateu na porta do bolicho, arrodeou. Não havia nenhum cachorro para anunciar a sua chegada. Arrombou a porta do fundo, na cozinha, nada mais havia no pequeno rancho, que realmente adormecia tapera. 
        Saiu como pau na enchente, sem saber o que fazer. Tomou o rumo da estância novamente. Pouco mais de légua ele encontrou um caseiro de uma estância ali próxima e ao perguntar-lhe o que havia acontecido, recebeu a resposta que tanto o afligia nessas últimas semanas. 
       O bolicho havia sido roubado, novamente. O bolicheiro pegou a família e botou o pé na estrada, não se sabe para onde. 
          Esses dias foram muitos difíceis para ele. Voltando para a estância a vida tornou-se monótona, sem graça. Não tinha vontade de fazer mais nada: Domas, cordas, remendar um laço, causos, peleias, nada mais lhe chamava atenção. A peonada da estância já nem procuravam mais ele, pois suas palavras eram amargas, cheias de ódio ou tristeza. 
         Uns achavam que era por causa do Pai, outros, que era pela doença da dona Ruth. Tinha os que achavam que era por causa de algum rabo de saia, que ele conhecera por essas carreiradas ou então, alguma daquelas lá do povo, no dia da entrega da tropa. 
         Mas, no fundo, só ele sabia do seu sentimento. O aperto que vinha do coração, machucado pelas lembranças daquela menina que brotava do seu peito como água cristalina que sai de uma vertente, entre as pedras de um rochedo nunca tocado pela mão humana. 
       Chegara à hora de tomar uma decisão! Assim o fez. Pediu as contas ao capataz da estância, pegou as poucas coisas que tinha, meteu numa mala de garupa, encilhou um cavalo, botou na estrada. Saiu de estância em estância, tentando encontrar o caminho que o levasse até a sua desconhecida amada. 

         Numa dessas estâncias encostou-se de peão, para fazer a doma de uma potrada xucra que havia por ali. 
           Era a época das esquilas. De longe já se ouvia a comparsa das tesouras, o theque-theque milongueado dos martelos, que pareciam adentrar na alma daquele teatino. A estância tinha recebido gente de toda parte. Uns para trabalhar no garreio, na tosa, ensacamento das lãs, na dosa das ovelhas, que não eram poucos os que ali estavam. 
         Ao anoitecer, após um dia inteiro de esquila, a peonada juntava-se pelo galpão, aos pés dum fogo de chão, para as rodas de mate, canha, causos e cantorias. Nico não se contendo de tanta curiosidade, volta e meia sentava-se ao lado de um, ao lado de outro, sempre perguntando, indagando, tentando descobrir alguma coisa, sobre a família do bolicheiro lá do rincão. 
        Pois foi numa dessas conversas, que ele encontrou seu Feliciano, com o peso de seus setenta e tantos anos, vivendo praticamente de estância em estância fazendo esquila. Conhecia, certamente, todos e todas as estâncias da redondeza e algumas lá do lado oriental, onde tinha bons amigos castelhanos. Pois seu          Feliciano viera de uma estância lá da costa do Uruguai, onde havia trabalhado na esquila, juntamente com o Tocaio, bolicheiro lá do rincão, o qual ele já conhecia há muitos anos. 
         Nico não conteve a curiosidade e lhe indagou de tudo. Perguntou se seu Feliciano conhecia a menina, qual ele tanto interessava. 
Após horas e horas de prosa, a peonada já estava atirada pelos catres, ali mesmo junto ao fogo, para repouso, Nico ficou sabendo de tudo. O que havia acontecido, mas ainda estava longe de encontrar quem ele tanto procurava. 
         Seu Feliciano, devido à longa idade, andava meio esquecido, mas ainda lembrara-se da família do bolicheiro. 
     - Ele, a esposa, um menino ainda de colo e uma menina já mocinha, com a chegada dos “bandido” no bolicho, pegou todos e saiu campo afora, vindo pegar carona numa comitiva que levava uma tropa, “pra charqueada lá pra banda” da capital. Por lá não conseguiu trabalho, foi pr’uma estância lá na costa do Uruguai, sozinho, deixando a família na casa “d”uns parente”. – Lembrou-se o velho, contando enquanto fechava um baio, lentamente. 
          Isso não era muito. Mas para quem não tinha nada, era bastante. Nico achou-se satisfeito. 
        - Quem sabe nos próximos dias, seu Feliciano não se lembre de mais alguma coisa ou algum outro peão não conheça o bolicheiro e sua família – pensou ele, num sorrio largo. 
         Saiu, viu àquele céu estrelado, uma lua minguante voltada para cima, mais parecendo às aspas de uma zebua. Andou meio sem rumo, vagando em pensamento, imaginava como seria ela? Será que estava feliz? Será que pensava nele? 
        Voltou para dentro e recolheu-se no seu catre frio, feito de garras sobre uma carona e o travessão do lombilho. Dormir não dormiu, mas ficou quieto, tentando ouvir nos versos do silêncio a cantiga que mais gostava, daquelas que falam de amor. 
        Assim passaram-se dias, semanas, meses. Após aprontar a doma da potrada, a esquila já havia terminado, a peonada partiu deixando a estância quase vazia. Chegara a sua hora de partir, Dom Martinho encheu-o de propostas, mas nada ou ninguém mudaria o pensamento dele naqueles dias, ainda mais, depois de saber o rumo de sua pretendente. 

          A entrada do outono trazia prenúncio de um inverno brabo. Garoa, frio, chuva. Tudo tornava os dias mais difíceis e mais curtos. A estrada era longa. O sentimento dele maior ainda. A dor da distância fazia com que o tempo ficasse mais frio. 
         “Por onde andarão os olhos da linda que amei com carinho, quem sabe a caminho aqui do meu mate por este aguaceiro, de traz da vidraça a chuva retrata àquela princesa que tem a beleza de flor da campina e jeito trigueiro. A noite se achega na mesma cadência dessa chuva fria, já fazem três dias de agosto sebruno com jeito de enchente, o vento assovia, gemidos estranhos, uivando na quincha e o zaino relincha, parece um campeiro, proseando com a gente”, 
         
        O tempo passou de pressa. Os meses correram como a água que desliza de uma cachoeira, sem parar. As coisas a cada dia ficavam mais difíceis. Veio mais um verão. Outra primavera. Outono de novo. E mais um inverno. As geadas branqueavam desenhando campos e o vidro das águas. O vento frio cortava como lâmina afiada, a alma do vivente. O tal de minuano fazia cantigas, com versos tristes e mal acabados, assobiando na baeta de um poncho, de carnal molhado de saudade e tristeza, no corpo de um peão deserdado do amor e desgarrado do pago. 
        Já sem dinheiro, pouca roupa, a esperança em farrapos e os olhos cansados de procurar a esmo, a paixão louca que atormentava dia e noite o peito deste pobre peão solitário. A tristeza dos últimos dias quebrava o vidro dos olhos. A falta de trabalho, o lugar desconhecido, o cansaço e o estado do seu cavalo, tudo era motivo de voltar, de buscar um rumo novo para a sua vida, lá na estância onde sua Mãe, certamente, lhe esperava ansiosa, de braços abertos pela volta do filho amado. 

        Numa manhãzinha, ele aproveitou a estiagem da garoa que tomava conta daquele povoado, onde margeava um grande rio, com águas profundas, bem azuis e espelhava um céu ainda nublado. 
        Em grande canoas chegavam carregadas de peixes que eram vendidos numa feira, ali mesmo na costa do rio e numa pracinha um pouco mais distante, mas não muito, dez ou vinte minutos, de a pé. 
Nesta manhã, Nico viu a chegada dos pescadores. Conversou com algumas pessoas que por ali estavam. Mas nada conseguiu. Nem informação, nem trabalho. Nada. Então, vira chegado à hora de voltar. 
          - Mas para onde? - Tomou o rumo que o seu coração mandara. Sairia à toa. 
        Após um dia longo de cavalgada, seu cavalo que sempre fora tratado a milho e galpão, estava fraco, magro e cansado. Com o lombo, pisado de tempo e arreio, mancando e com o casco de uma das mãos sangrando, Nico resolveu dar um descanso para o seu fiel companheiro. 
          De longe avistou um ranchincho, na costa de um capão de mato onde corria a água de uma restinga, de pedras e areia. Uma água muito alva quase transparente, límpida e clara, onde se enxergava os cardumes de lambaris nadando no embalo da correnteza. 
        Era uma casinha branca no pé da serra, rodeada de jasmineiro e orquídea em flor, na frente um João Barreiro fez sua casa, talvez porque também sofra da mesma dor! - Pensou ele,  
       Um galpão e mangueira, para vinte ou trinta animais e um açude mais à frente, feito com as águas da chuva que foram muitas nesse inverno longo. Na parte de traz do rancho, uma chacrinha, com restevas de milho e mandioca, começando a ser preparada para futuras plantações. 
          Nico não se fez de rogado. De pronto chegou e pediu pousada. Pediu um lugar para cuidar de seu cavalo. 
         O dono da casa, um senhor simples, trabalhador, trazia a marca do serviço bruto em suas mãos e nas roupas que trajava. Mesmo não o conhecendo prontamente deu-lhe abrigo. No galpão, fez-se um fogo de chão. Soltou o cavalo num potreiro de pasto alto no fundo da casa. Estendeu o poncho, ainda molhado, sobre um esteio do rancho, que fazia sustento a um varal de salames feitos com capricho e sabedoria. Mal tinha se ajeitado, já recebera uma cuia de mate quente, espumento feito com todo gosto, desses de dizer “bem vindo”, aquele desgarrado que por ali se achegava. 
        Em pouco tempo, Nico contou-lhe parte de sua estória. Contou-lhe que estava de volta para a estância a onde fora criado. Contou-lhe, ainda, das dificuldades que encontrara no povo, para um homem que sempre vivera num fundo de estância. Falou de domas, tropeadas, rodeios e marcações. Só não falou o que realmente lhe interessava. 
         Por longas horas, matearam ali pelo galpão. Nico e seu Adão pareciam que já se conheciam há muito tempo. Seu Adão, na sua simplicidade, contou-lhe do trabalho que passava por ali, pois o que tinha era pouco para ele sustentar a sua família: - de mulher, três filhos e ainda uma sobrinha, já mocinha, filha de seu irmão, que ficara com eles, até eles encontrem trabalho e morada em alguma estância mundo afora. 
       Nesse dia as horas passaram num galope. Chegou à noite, seu Adão levou um prato de comida, uns forros de cama e um poncho seco, para que ele fizesse uma cama ali no galpão. 
        Após o casal recolher-se, ele fez a sua cama, mas por entre as frestas da parede grosseira e mal acabada, ouviam-se vozes que vinham de dentro de casa, suaves cochichos, risos, brincadeiras, como se alguém estivesse lhe espiando. 
       Foi à noite mais curta dos últimos anos. Ao amanhecer, Nico foi buscar seu cavalo, mas logo viu que não daria para encilhar. O animal estava mancando muito e de lombo pisado. Encilhar o cavalo naquele estado seria um crime com quem tanto lhe ajudara. Voltando ao galpão, desacorsuado com tanta coisa ruim que vinha acontecendo com ele. O que faltava para piorar a situação? 
Seu Adão vendo as dificuldades do rapaz convidou-o para ficar mais alguns dias, até o animal se restabelecer. 
        - Depois que o animal ficar bom, tu alça a perna, meu rapaz – disse ele. 
        Nico não ficou muito conforme. Mas teve que concordar. 
      Naquela manhã, seu Adão precisava concertar umas cercas que ficava na divisa com a propriedade de um fazendeiro, lá na costa da restinga. 
       - Dizem por ai, as más línguas, que são os maiores ladrões de gado do rincão é o que todo mundo sabe, até a milicada, mas que ninguém faz nada, porque ele tem as costas largas com o seu delegado e que não podem prender o infeliz porque ele teve na revolução. – Não sei se é verdade! – Exclamou seu Adão. 
         Nico e seu Adão ficaram bons amigos. De pronto viu-se que aquele rapaz de pouca conversa, de olhos tristes e sofridos, acima de tudo era um trabalhador. Ajeitaram a cerca, construiu uma parte nova, com palanque, trama, arame farpado. 
        Voltaram para casa já virado do meio dia. Ao chegarem, seu Adão convidou-o para entrarem e almoçarem juntos com a família dele. A princípio o rapaz renegou, mas após sua insistência, ele acabou concordando. Dona Vera foi comunicada que colocasse mais um prato na mesa, que o rapaz iria almoçar com eles, mas antes do almoço fizesse um mate “ajujado” de cidró e puejo e levasse no galpão. 
         Dona Vera fez o mate. Chamou por Clarice e mandou que levasse ao galpão, onde os dois esperavam ansiosamente, para aquecer a alma e espantar o cansaço. 
       Sentado de costas para a porta sobre um carnal de pelego, de cabeça baixa, colocando lenha no fogo, viu adentrar no galpão o vulto de uma moça, que passou por ele e foi de encontro a seu tio que estava sentado mais ao fundo do galpão, onde lhe dera a cuia de mate. 
        Ao levantar a cabeça, viu parada em sua frente, a pessoa que ele mais procurou nos últimos três anos. Da tristeza ao sorriso, da esperança a realidade, da busca o encontro. Tudo tem tempo, tudo tem dia, tudo tem hora marcada. E ali estava ela: linda, meiga, os mesmos cabelos negros, mais longos, mais lindos. A menina crescera, uma moça se tornara, mas o mesmo sorriso maroto, os mesmos olhos grandes, o mesmo jeito delicado. Encabulada, ela deixou resvalar um “bom dia”, meio sem convicção, o qual foi recebido com muita alegria, por ele, para o espanto de seu Adão. 
         Foi o mate mais gostoso tomando ao longo de seus vinte e dois anos. Na cuia ficou o cheiro do perfume dela. Um cheiro doce, de margarida, de açucena, de flor do campo, de um jardim inteiro. Certamente seja o mesmo cheiro que está escondido sob aqueles longos cabelos negros. 
      Após muitas cuias de mate, tomados em silêncio por parte dele e de desconfiança por parte de seu Adão, ambos adentraram na cozinha de pedras que ficava na parte de traz da casa, onde uma grande mesa, bem no centro, já tinha as crianças sentadas à sua volta, deixando a cabeceira livre para o dono da casa.          Ao lado oposto onde Clarice estava sentada, havia uma cadeira na espera dele, para o primeiro almoço feliz da sua vida. 
       Antes de servir-se ele olhou bem nos olhos da menina que sentara à sua frente, ainda não acreditando no que estava acontecendo. Ela coitadinha envergonhada, baixou a cabeça deixando rosada aquela pele macia de seu rosto lindo. 
     Comeu. Mas não perguntem o gosto da comida? – O que comeu? - O que conversaram? Nada disso ele sabe. Espantado com a formosura daquela que ali estava à sua frente. 
       Nunca tinha visto coisa igual. Nem nas estâncias, nem nos povoados, nem nas casas das moças da vida. Não, em lugar algum se viu alguém qual a ela. 
       Tanta coisa passou-se pela sua cabeça naqueles poucos instantes que esteve sentado à mesa. – Será que o mundo é pequeno? – Será que são coisas do destino? – Será que é ela, ou apenas alguém parecida? – quantas e quantas perguntas vinham ao mesmo tempo. 
      Meio sem jeito pediu licença e voltou para o galpão. A cada passo que dava, parecia que o chão se abria. Tudo aquilo que estava passando era um sonho, não poderia ser verdade. 
          Sentou-se a beira do fogo. Fechou um palheiro. Encostou a cambona junto às brasas. Foi fazer um mate para baixar a bóia que não o fizera bem. Na idéia passavam tropas e tropas de pensamentos. 
         Após o almoço como é de costume, seu Adão e a família se recolheram para a sesta. 
        À tarde cinzenta trouxe uma garoa fina que se prolongou pelo longo do dia. Ele no galpão estava inquieto, arrumou umas cordas que estavam puindo. Fez uma arapuca para pegar umas pacas, que vira na beira da restinga. Acendeu um pucho, que se terminava no canto da boca e tirou uma longa tragada sempre pensativo. 
          Volta e meia ia até a porta do galpão, como se quisesse sair para falar com alguém, mas faltava coragem. 
          Tantas perguntas continuavam rondando o seu pensamento. – o que faria naquele momento? – O seu Adão, como reagiria se ele contasse o que de fato escondera? – E ela, o que fazia ali? – Será que ainda se lembrava dele? –  Perguntas, perguntas e mais perguntas. Todas elas sem uma única resposta. 
       No meio da tarde, seu Adão foi ao galpão, pegou um balaio vazio e foi até um jirau que fica um pouco mais atrás no terreiro, trouxe-o cheio de espigas de milho, para descascar e debulhar. A tarde continuava nojenta, tempo fechado de garoa. 
       Descascou um, depois outro, depois mais um terceiro balaio de milho. Então apareceu Clarice com duas crianças pela mão. 
       - Viemos ajudar a debulhar milho - Disse ela. Com uma voz doce e delicada. 
      Sentou-se num banco de três pés, que se encontrava de frente para ele, pegou uma caixa feita de couro cru com madeira, colocou-a entre as pernas e começou a debulhar milho com uma destreza, muito pouco visto como quem costumava a fazer aquilo normalmente. 
          O silêncio tomou conta do galpão, dava-se até para ouvir as batidas de um coração potro, que teimava em gavionar, querendo sair campo afora, buscando a liberdade de quem vive aprisionado numa louca paixão, dessas que amarga à boca, distante do grande amor. 
         Seu Adão havia ido levar bóia para os bichos e eles ali, a sós. Está certo que havia duas crianças junto a ela, mas as crianças jamais perceberiam que aquele momento era o prenúncio de uma história que parecia estar acabando, mas na verdade estava recém começando. 
        Clarice deixou o cabelo cair sobre seu rosto fino e meigo de onde disfarçadamente, por entre os fios das madeixas, fitava com olhos vazios a beleza do homem que estava à sua frente. 
        Nico, meio perturbado com aquela inesperada presença, não sabia se puxava conversa com ela ou apenas a admirava, pela sua beleza desigual. 
Foram os momentos mais silentes, entre dois seres. Tão pertos, mas tão distantes. 
        A tardinha chegou logo. O tempo continuava ferruscado. Dona Vera fez um mate com todo capricho e trouxe ao galpão. 
         Ali encontrou todos trabalhando. Alguns cestos de milho pela boca, pronto, debulhado. Todos reunidos pareciam uma só família. Nico já havia falado um pouco de sua vida. Clarice contou de sua, também. Seu Adão fez algumas argumentações sobre os prejuízos daquele inverno brabo. Todos reunidos pareciam que já se conheciam há muito tempo. 
          Veio à noite dona Vera foi arrumar a janta. Os demais continuavam ali no galpão, na volta do fogo de chão. Um lampião aceso num canto deixava o ar com jeito de romance e nostalgia. No lusco-fusco do candeeiro dava para ver os contornos de um perfeito corpo de mulher, que se desenhava sob um vestido longo, de chita e que colocara sobre os cabelos, um bem feito manto negro, feito de crochê, parecendo uma dessas Santas que vivem nos altares enfeitando as salas das estâncias e os sonhos da gente. 
         Após a janta todos se recolheram para seus aposentos. Nico, no galpão, não acreditava no que estava acontecendo. Depois de dias, meses, anos à procura dela. Fora encontrar logo ali, onde menos esperava, junto com aquelas pessoas, tão simples e tão boas para ele. 
         Assim passou-se aquela noite longa. Veio um dia, mais outro. Uma semana. Depois outra. E mais outra. Nico por diversas vezes ficara a sós com sua amada, sem nada a lhe dizer. Sempre respeitando a moça e a família que tão bem o acolhera. Seu coração muitas vezes teimava em disparar, seus olhos teimavam em procurar os dela, mesmo sabendo que seu Adão poderia desconfiar. Mas tê-la ali, junto a ele, sem nada poder fazer era um tormento, que estava difícil de segurar. Então era chegada a hora de partir. 
        
         Seu cavalo havia melhorado. Os dias que ali ficara trabalhou para ajudar nas despesas daquela família. Se partisse hoje mesmo, nada ficaria devendo, a não ser a sua amizade, o carinho e a lembrança que levaria para a vida toda, daquela família tão amiga. 
         Chegou o grande dia sexta-feira. Nico dissera que no sábado, ao clarear do dia pegaria seu rumo. Voltaria para a estância onde fora criado, onde havia deixado sua Mãe e parte do seu passado. 
        Clarice já não conseguia mais esconder o interesse por ele. Seu Adão e dona Vera, já estavam contrariados com o jeito da sobrinha. Pois ela estava ali por algum tempo e não era certo se interessar por alguém, longe dos Pais dela, que recomendaram com tanto zelo e estima. Não era certo, ela uma moça de família e ele apenas um desconhecido que ali aparecera. 
Naquela tarde, ele fora na restinga dar água ao seu cavalo, após as lidas do dia.            Quando já se preparava para voltar para a casa, ouviu aquele choro soluçado que se aproximou dele num repente e abraçou-o, com força, com paixão, com sofrimento e dor. 
          Ele sentiu seu corpo estremecer. O calor da pele dela, o cheiro, a maciez de seus cabelos, tudo estavam ali em suas mãos. Abraçados. Ela chorando. Fazendo juras de amor. Implorando para que ele ficasse. 
        “Foram às imagens mais lindas que um par de olhos já viu. Duas poças de ternura se transformar em rio, em cada gota caída brotavam pétalas de flor, perfumando o lençol da grama, com o cheiro doce do amor”. 
         Calmamente ele foi acalmando-a. Pediu que parasse de chorar. Com carinho, limpou as lágrimas que escorriam dos olhos dela. Sentindo-se protegida entre os braços rudes daquele peão, que ela nunca esquecera ao longo desses anos, então, começou a contar da sua vida, a sua história. 
          Contou de seus Pais. Do que acontecera, para eles irem embora do lugar de onde moravam, onde vira ele pela primeira e única vez. 
         Contou das vezes que fora para o corredor, esperar a volta dele daquela tropeada; 
          Das noites que rezava e pedia para que ele fosse buscá-la. 
       Do dia que o viu chegar ali na casa do seu tio, pelas frestas da janela, assistia o seu cansaço, tendo a certeza que viera para buscá-la. 
         Por um longo tempo ficaram ali, na beira da sanga, matando a saudade que consumia aqueles dois corações, apaixonados. 
         Nico contou-lhe, que durante todos esses anos, vivera pelas estradas a procurá-la. Já estivera pelas estâncias, nos povoados, pelos rincões, sempre na esperança de um dia encontrá-la. 
        - Foi o destino que te colocou novamente no meu caminho – disse ele com convicção – e não vai ser a gora que eu vou deixá-la – completou. 
        Os dois ali abraçados um olhando para o outro, como se não tivessem acreditando que estavam ali, juntos, unidos e agora para sempre. 

         Clarice voltou para casa. Recolheu a roupa que estava estendida no varal. Sempre cantarolando, estava feliz. Há muito tempo que ela não cantarolava que ela não tinha um sorriso tão lindo, um olhar tão brilhante, que não demonstrava a felicidade que estava sentindo naquele momento. 
           - O que estava acontecendo com Clarice? – sua tia desconfiou. Mas não deu importância. Se, estás feliz, que bom – pensou-a, conversando com seus botões. 
         Naquela noite Nico agradeceu a hospedagem daquela família. Comunicou-os, que partiria muito cedo para aproveitar o máximo do dia na estrada, pois a estância ficava há muitas léguas de distância dali. 
          Após todos dormirem ele trouxe o cavalo para próximo do galpão. Escorou-se um pouco num catre feito dos arreios e o poncho e deu uma ou duas cochiladas. A noite fria trazia uma lua clara. Os campos cobertos de geada pareciam ficar mais claros ainda no brilho da lua cristalina. O Cruzeiro do sul apontava o oposto para onde ele iria. A estrela boeira lhe anunciava a madrugada.         O Minuano juntando notas da pauta dos aramados recitava versos pelos galhos do arvoredo. Ele já em pé com a fibra de um caudilho de guerra, encilhava seu o cavalo num silêncio de adeus na porteira, sempre de olhar voltado para a banda da casa, para janela do quarto dela. 
          Quando tudo já estava pronto para a partida correu novamente seus olhos tristes, onde gotas de água e sal teimavam em escorrer do fundo daquelas duas cacimbas vazias, como num adeus de despedida. Lágrimas não por ter que partir, mas por ter que partir solito, deixando para traz aquela que tanto buscara nos últimos anos, pelas estradas da vida. 
          Quando alçou a perna no pingo sobre a cabeça do serigote ele viu um vulto, entre as árvores do quintal, que saía um pouco acima do oitão da casa. Toda vestida de negro com um manto enrolado sobre a pele rosada do rosto parecia um vulto, uma dessas assombrações que a peonada conta nas rodas de mate, que saem da boca das picadas, para atormentar os andantes. 
            No principio ele assustou-se, mas logo viu que era ela e já trazia um saco cheio de roupas, estava pronta para cometer uma loucura. Loucura que ele não se animara a pedir para ela fazer, mas que trazia novamente um sorriso para seu rosto triste. 
           Quando clareou o dia, já estavam légua e tanto da casa do seu tio, no rumo da estância. Próximo ao meio já meio tomados pelo cansaço, eles encontraram uma comitiva que voltava de uma tropeada e estavam acampados preparando o almoço, na costa de um capão de mato, na volta grande de um rio. 
          Ambos foram bem recebidos pela peonada. Almoçaram e Clarice pegou carona com o cozinheiro da comitiva, num carretão de toldo que mais parecia uma casa. 
            
          Depois de alguns dias chegaram juntos na estância de dona Ruth, onde sua mãe vivia ansiosa por não saber notícias de seu filho. 
            Dona Eleonor ficou surpresa e ao mesmo tempo feliz, com a volta do filho. Abraçou-o longamente e com os olhos ainda cheios de lágrima deu um grande abraço em Clarice, admirada com a beleza da moça. 
Dona Ruth estava muito doente, com esclerose e uma tosse cumprida, dizem que estava tísica, que nem levantava mais da cama, vivia só de teimosa, porque não tinha força para nada. 
          Naquela noite houve festa na estância. Nico sempre foi um grande homem, um exemplo para a peonada e querido por todos. Pelos galpões a indiada bebia, cantava, jogavam truco, tava, tinha roda de viola e cantoria. Tudo em comemoração ao amigo que voltara. 
           A farra foi madrugada à dentro. Tudo era festa. Ninguém sabia quem era aquela moça que ali estava. Só sabiam que o Nico estava feliz e que todos estavam felizes com ele. 

          O outro dia já trazia os primeiros raios e ainda havia gente pelos galpões bebendo e comendo. Festa igual ainda não tinha acontecido, pelo menos ali na estância. 
            No Domingo. Haveria uma grande carreira lá na cancha dos Corrêa. Não era muito longe, uma légua e tanto ali da estância. 
           Quando havia essas carreiradas, juntava o povaréu de todo lado. Iam os daqui do rincão, vinha gente lá da Vista Alegre, do Farinheiro, da costa do Itú, do espinilho e até da Vila Forte. 
           Do povo vinha a milicada e algumas tipas que velho Corrêa mandara trazer, sem ninguém saber, para deixar a festa mais animada, mais recatada – dizia o velho fanfarrão. 
           Naquele Domingo, em especial a segurança era redobrada, pois haveria três pencas. Uma muito importante era uma carreira de petiços, sendo que dois deles muito famosos. Falam por ai que um piticinho baio maceta tem as juntas grossas de tantas carreiras que já venceu. Foi esse petiço que o José Loco trouxe lá da Linha Sete e dera de presente para os filhos da professora. O outro é um peticinho porqueira, tal de Mitaí do velho Noel, mas que numa só carreira, lá pras bandas do Mato Grosso, ganhou não sei quantas quadras de campo, de porteira fechada e que até em décimas andam o cantado pelo rincão. 
             De manhãzita a peonada foi se bandeando para as carreiras. O Nico não ficou para traz, apensar da festa de ontem, acordou cedo encilhou o melhor cavalo da estância. Selou outro para a sua amada. E se botaram para as carreiras. 
Clarice não estava à vontade. Sentia-se ainda cansada da aventura que fizera, mas não era hora de contrariar o seu amado. 
             Nico sempre atencioso tentava distrair a amada, mostrando as belezas que a natureza oferecia-lhes. Suas brincadeiras foram cada vez mais a encantando, pois ela pouco conhecia o homem pelo qual se apaixonara, mas a cada instante, a cada momento vinha provar que aquele amor era puro e verdadeiro. Maior que tudo e valia a pena se arriscar por ele. 
          No fundo da estância passava um rio de água muito clara. Grandes pedras, pequenas cascatas formavam-se entre elas. Remansos e logo abaixo do passo uma linda cachoeira, que borbulhava formando uma branca espuma, muito transparente. Foi ali que eles pararam para descansar um pouco. Clarice lavou o rosto na água fria que corria intensamente, tirou os calçados que apertavam aqueles pés delicados e colocou-os na água limpa e pura do rio. 
      Por ali ficaram algum tempo. Ouvindo o chiado do rio, o barulho da correnteza, o cantar da passarada, a cantiga dos galhos bailando ao som do vento. Conversaram sobre suas vidas, sobre o passado e principalmente sobre o futuro. 
        Ela se lembrou de sua família, de seus Pais. - Será que estariam sabendo da loucura que fizera? – Chorou. Sorriu. Cantou. Fez tudo que há tempos não fazia, sempre sentindo o carinho especial daquele que também era especial. Protegida entre seus braços, acariciada e afagada pelas mãos rudes de um peão, sentia-se a pessoa mais feliz deste mundo. 
        O tempo passou rápido. Já estava na hora de seguir à diante. A proximidade com o meio dia, o sol quente, tudo vinha preocupando Nico. 
       Montaram novamente e apressaram o passo de seus cavalos, quando o sol ficara bem à cima de suas cabeças, chegaram à estância dos Corrêa, lugar da grande carreirada, era virado de meio dia. 
          Por lá a coisa estava linda demais. Ela nunca vira aquilo. Debaixo das árvores, na costa do mato, na sombra da casa, as pessoas sentadas: pelo chão, pelos tocos, nas pedras e ali já estava a peonada da estância. Uns bebendo, outros jogando truco, outros se refestelando para as chinocas que chegaram do povoado. Nico e Clarice ficaram ali juntos com eles, na sombra de uma grande figueira, onde comeram e beberam a vontade. 
         Dizem que até o Velho Corrêa andava por lá no meio das tipas, se achando galo. Isso não se sabe se é verdade. Mas que ele estava faceiro, isso estava. Parecia um guri novo, quando enche as mãos de caramelo. 
       Ali da sombra copada de uma frondosa figueira, dava para enxergar os trilhos da cancha reta que ficava um pouco mais em baixo, costeando um capão de mato que ia até o corredor. Foi ali, nesse capão de mato, que se encontrava a maioria do pessoal, comendo, bebendo, dançando. Tinha até uns trovadores lá do rincão, fazendo verso de improviso. Homenageando os estancieiros, às vezes as chinas, às vezes até a milicada, entrava nas homenagens. 
         Lá pelos trilhos apesar da “ressolana” daquela tarde, uns “matunguinhos” porqueiras fazendo “juntamento” de borracho, nuns “picholeios” sem fundamento. Havia mais poeira do que qualquer outra coisa. Chegava dar nojo de ver aquela gritaria por pouca coisa. 
        À tarde mormacenta não espantou o povaréu. Muito pelo contrário. Cada vez chegava mais gente. Uns de carreta, outros de acavalo, alguns apé. Veio até a viúva do finadinho Tonho, toda de preto. Numa aranha puxada por um tordilho negro, flor de cavalo, dizem por ai, que é o melhor da estância. Mas ela chegou solita, metendo banca, nem parecia que há poucos dias, andava por lá chorando a morte do finado. 
            Lá pelas duas da tarde, começaram as jogatinas. Na volta do mato, Dom Corrêa juntou três ou quadro peão, ferrado até os dentes. Estendeu um poncho, com carnal vermelho virado para o céu e começou atirar “uns patacão” de ouro puro. Coisas que juntara no longo dos seus setenta e tantos anos de vida. 
          Como principal testemunha disso tudo, veio do povoado, também para fazer a segurança o Delegado Moura e mais quatro homens da brigada fardada. 
          O Delegado Moura era homem respeitadíssimo por sua valentia. Dizem até que num “João Fernandes” lá na costa do Itú, prendera uma porção de castelhano que andava acabando com os bailes da redondeza. 
         Homem de confiança de Velho Corrêa tinha uma difícil missão naquela tarde. Além de fiel depositário dos valores jogados, seria também, o juiz de chegada e ainda teria que cuidar da segurança e o bom andamento daquelas carreiras. 
          Nunca houvera, no rincão, tanta gente, como naquela tarde. Também nunca houvera tanto jogo. Jogavam-se patacas de ouro. De prata. Cavalo encilhado. Tropilhas. Tropas de gado. Até uma estância de porteira fechada, foi jogado. 
           Dizem as más línguas, que o José Loco queria jogar a sogra. Mas essa ninguém quis. Então jogou um casal de porco. Dezoito galinhas. Uma vaquinha do leite das crianças. E duas latas de banha. 
          Lá pelo meio da tarde, começaram chegar os parelheiros. 
           Chegaram os Petiços que iam correr a primeira carreira. 
       Depois chegou o alazão do José Goela, que corria contra a Tordilha do Capincho e a Moura do Nardinho, na Segunda penca. 
          E mais tarde, quando a indiada já andava em volta com a matungada, chegou meio escondido, o tordilho do Corrêa, que ia correr com tostado do Juca Flor e a Zaina do Nego Bento, que antes de chegar, já diziam que estava dopada. 
         As duas primeiras carreiras deram a pedra. 
          A primeira ganhou o Petiço do Noel, com luz e doble; 
        Na segunda deu a Moura do Nardinho. Até aí, tudo certo. Mas a terceira foi o problema. Contaram-me, por que eu não vi e até hoje ninguém sabe o certo.             Dizem que o tostado do Nego Bento e o tordilho do Corrêa vinham batendo cara a cara, focinho a focinho, lado a lado, desde que saltaram na largada, mas lá já quase no fim do laço o piá que montava o tostado, mudou o chicote de mão e fez menção de bater no tordilho, que se assustou e o tostado ganhou de cabeça, para o delegado, julgador da penca, que não se fez de rogado, indo levar prontamente aquele gesto para o Seu Corrêa, que não aceitou o resultado da carreira. 
           Pra encurtar o causo. O velho não quis pagar à carreira e começou o bochincho. 
          Peleava gente sem saber por quê. O Delegado e os miliquinhos que ali estavam de nada puderam fazer. Mandaram-se casa à dentro, dizem até que foram se esconder em baixo da cama do velho patacueiro. 
       Peleava gente com o que tinha na mão: adaga, facão, cabo de reio, bolhadeira. Era mulher batendo em homem. Homem batendo em mulher. Gente correndo para o mato. Invadindo as casas da estância. Cavalo correndo campo afora. Mulher perdida dos filhos. Dá até uma tristeza descrever esses relatos. 
          Entre mortos e feridos. Ferido de morte não se sabe quantos. Só se sabe quem morreu, mas ninguém sabe quem matou. O rebuliço era tão grande que teve gente que só foi se encontrar três dias depois andava perdido pelos matos, a procura de um rumo. 
        Os mais conversadores dizem que foi nessa peleia, que o Ibaldino aproveitou e roubou a filha do Quinoca, com quem já andava de cacho às escondidas, 
         O Nico, que levara Clarice para aparecer no meio daquele povo, não se meteu na confusão. Mas mesmo assim andou tomando uns estouros. Não se sabe de quem, nem como foi só sentiu o calor do aço, disparando rumo do galpão, esqueceu até que era noivo. 
         A Clarice, coitadinha, atordoada no meio da confusão, disparou para o meio de umas taquareiras, no fundo das casas, enganchou o vestido e ficou só de corpete, toda arranhada, parecia que tinha brigado com gato. Louca de vergonha tentando esconder aquela belezura de corpo que o noivo tanto admirava. 
          Mas o pior aconteceu com a Tia Julica. Nessas horas que eu me pergunto, o que uma velha, de quase cem anos, vai fazer num lugar como aquele? - A coitada já tinha levado uma esfrega, na confusão que deu dos Moreiras e os Jacques, numas carreiradas outro dia, lá na Vista Alegre. 
          No meio daquela confusão a velhota conseguiu chegar à costa do mato.     Um pouco caminhando, um pouco se arrastando. Foi esperta a velha, se escondeu dentro de uma tulha, que o bolicheiro tinha levado com mantimentos para vender nas carreiras e que estava quase vazia. Entrou dentro e ficou bem quietinha. O Mano João e o Beto Bocage, guri do Nei, que são ladeados de sem vergonha, tinham uma desavença com o Marmelada, dono do bolicho, aproveitaram a situação para se cobrarem. Pegaram aquela tulha e largaram lançante a baixo, num perau que tinha dentro do mato, indo findar numa sanga cheia unha de gato e japecanga que nem mão pelada cruzava. 
         Para não me alongar. Três dias depois encontraram a velhota, dependurada nas unhas de gato, parecia um charque estendido num varal. Sem fala na verdade, mas ainda viva. 
          Mas o pior estava fora do mato, no redor da cancha, a corvaiada tomaram conta e ainda encontrava-se loncas de couro, pedaços de orelha, retalhos de roupa e tudo que um próximo possa imaginar espalhado campo afora. 

         Na estância, muito deu o que falar esta peleia. Mas a vida continuava. Nico e Clarice ganharam de dona Ruth um pedaço de campo no fundo da estância, lá na beira na Sanga da Tia Joana, onde era a tapera do Sabino e ergueram um ranchinho de barro e capim, bem na sombra de um arvoredo copado, aos pés de uma cacimba de água que era um espelho. 
         Fizeram uma rocinha para plantar mandioca e milho e mais junto da casa um jardim bem florido, uma horta toda fechada de taquara rachada. 
        Nico continuava trabalhando na estância. Toda manhã bem cedinho encilhava o cavalo e ia para lá, de onde saíam para a recolhida do gado. Às vezes tinha cavalo para doma. Algum feitio de corda. Algum concerto de cerca. Serviço nunca faltara. 
          Clarice sempre que dava, encilhava uma petiça troteadeira, que ganhara de Dona Ruth e ia também para a estância. Outras vezes, era a dona Eleonor que ia visitar a nora. E assim os dias iam passando na calmaria do tempo. 

         Um dia Nico foi chefiar uma comitiva que levaria uma tropa de boi para as charqueadas, indo ficar por lá três ou quatro semanas. Então Clarice veio ficar na estância, pois dona Ruth já se encontrava bastante doente. Dona Eleonor que escondera a vida toda, um segredo que era só seu, achou ter chegado à hora de contar a quem mais interessava à dona Ruth. 
           Era uma tarde, depois do chá das cinco, que costumeiramente dona Ruth tomava, embora com muita tosse e bastante debilitada dona Eleonor sentou-se no costado da cama e começou contar sua história. Tudo o que havia lhe acontecido:    Porque fora embora, porque voltara e o mais importante: quem era o verdadeiro pai do Nico. 
           A velha escutou tudo em silêncio sem dizer um ai. Dos seus olhos, já cansados desta vida, escorriam lágrimas, umedecidas de dor e de sentimentos. 
         Ouviu tudo e quando Eleonor terminara o seu triste relato, ela deu um longo abraço naquela que ela tinha como uma filha. Disse-a com dificuldades que a perdoasse, pois ela sempre desconfiara, mas nunca tivera coragem de saber a verdade do acontecido. 
        Antes de dona Eleonor sair, mandou chamar o Bonifácio, um serviçal que estava sempre prestes para seus chamados. Deu-lhe alguma ordem e adormeceu no seu repouso. 

         Uma semana depois Bonifácio apareceu na estância com o Doutor Flores, um velho amigo da família. Doutor Advogado que sempre cuidara dos interesses da dona Ruth, desde o tempo do traste de seu marido. Que até por sinal, na ocasião de sua falta, foi ele que fez aquela papelama toda. 
        Doutor Flores ficou lá o dia todo. Quase o tempo todo encerrado no quarto de dona Ruth. 
        Saía às vezes para tomar um café. Almoçar. Comer um guerrudo de milho feito pela tia Negra ou quando a velha precisava ficar a sós, para fazer suas necessidades. 
         O que conversaram? - Não se sabe. Nem se imagina. Mas acho que era coisa importante. 
        No meio da semana posterior à velhota não agüentou e “encaixotou as melância”. Morreu. 

        Foi um dia muito triste. O Nico ainda andava tropeando não se sabe nem por onde, não tinha como avisá-lo. O capataz sempre prestimoso a dona Ruth, foi quem tomou conta de tudo. Velaram ali na sala grande da estância, sobre uma mesa, que eu acho até que era do avô dela, de tão antiga. Veio muita gente. Pois a velha era, muito bem quista, aqui no rincão e conhecida até lá no povinho. 
        O Januário foi o encarregado de dá bóia para aquela gente toda, pois o velório atravessaria o dia e mais à noite. 
         Não é que tinha ficado um boi brasino que se desgarrou da tropa e se metera mato à dentro e para não atrasar a comitiva Nico achou melhor deixá-lo, parece que estava adivinhando. Pois foi esse brasino que Tio Mingo, mais o Caçamba, o Adão Gripa, em poucas horas viu espedaçado, atravessado nos espetos de pitangueira, sobre uma valeta de brasas de angico e curunilha. 
          O Bonifácio junto com os filhos do Plínio também já voltava lá da chácara do fundo, com uma carretilha cheia de mandioca e batata doce. Estava feita a bóia para aquela gente. 
        No outro dia amanheceu garoando. A criançada dormindo. Uns pelo galpão outros sob um toldo de carreta se viraram naquela noite fria. 
        As velhas choravam o defunto, umas lá pela cozinha, outras na sala e até pelos quartos tinha gente espalhada. 
       O Macherio não quis saber de choro, mas estavam por ali tomando canha e mentindo, contando vantagens como sempre, alegria de velórios. Dizem que o Adão Gripa e o Plínio passou a noite toda mentindo e discutindo qual o que tinha caçado mais, pescado o maior peixe, essas coisas de pescador e caçador. 
        No fim da tarde foi o enterro. A garoa diminuiu um pouco, fizeram uma missa de corpo presente com rezas e ladainhas e após a cerimônia, o caixão foi fechado e sobre uma carroça puxada por um cavalo preto, seguira lentamente na direção da coxilha onde fica o cemitério da família, o mesmo onde foi enterrado seu Alfredo e os antepassados dela. As pessoas caminhavam lentamente, nos olhares tristes a dor e o sofrimento de despedir-se daquela que por muitos anos esteve ali no rincão, sempre prestimosa, sempre atenta a todos que precisavam.         O adeus à dona a Ruth foi triste. Do cemitério no alto da coxilha, dá para enxergar quase toda a estância e até uma parte do rincão. É ali que ela descansou em paz. 
        Depois do enterro, sumiram aquela gente toda. 
      Dona Eleonor, Clarice e o pessoal da fazenda, não se conformavam com a falta de dona Ruth. A pobre descansou, na verdade, mas se conformar, ninguém se conformava. 
        Esses dias foram os dias mais tristes na estância. As coisas continuavam como eram antes, mas faltava a imagem, embora triste, de dona Ruth. Clarice passava às noites ali na casa grande, durante o dia ia a sua pequena casinha para dar uma olhada nos bichos, na porca do chiqueiro, bóia pras galinhas e a lavoura de milho que Nico plantara junto a casa. À tardinha voltava para pousar com dona Eleonor que se sentia só naquela enorme casa. 
            As noites eram de tristezas e solidão. A menina que pouco vivera sentia-se estranha naquela casa. O grande amor de sua vida ainda estava longe, talvez voltando, mas ainda longe. O Pai, a Mãe, irmão deveria estar crescido, nunca mais vira, nem se quer um chasque, um bilhete, uma noticia, nada. Os tios que deixara pra trás para viver a sua grande aventura de amor, também, nada mais soube. 

         Naquele fim de tarde o tempo se ergueu de fato pras bandas dos castelhanos. E a chuva guasqueada castigou o rancho a noite inteira pingando goteira nas telhas quebradas que o tempo gastou. O sono perdido tomou outro rumo pela madrugada, na erva lavada, amarga de sonho que se bandeou. Nas frestas respingam lágrimas de chuva em aguaceiro e lá no terreiro um galo encharcado traz vida pras casas, a manhã se espreguiça cinzenta e vazia bandeando o galpão, e a tal solidão fez cama com ela num peito em brasas. 
         O dia amanhecera com cara de sono do fio do horizonte e a chuva continuava bordando a coxilha no rastro do tempo. O capataz que não saíra pra lida andava lá pelo galpão ajeitando tento, sovando corda, lustrando as pratas do lombilho, quando chegou o negro do Queno com os olhos que eram uma bolitas, de assustado, pois tentara cruzar a sanga que estava fora da caixa e quase morreu afogado. Diz ele que se não fosse uns troncos que desciam água abaixo, onde ele pode se agarrar e voltar pra barranca. Era uma das maiores enchentes que já viram no rincão. 
       Um dia depois Nico chegou, encontrando o pessoal da estância, numa tristeza que dava dó. Ele também entristecera, pois seu sentimento por dona Ruth era enorme e a falta dela deixou a todos sem muita saída, pois o que fazer com a estância, visto que nem ela, nem seu Romeu tinham filhos. Naquele fim de tarde, antes do sol se deitar no horizonte, Nico colhera um belo ramo de flores, tão bem cuidadas por Clarice e fora levar no sepulcro de dona Ruth. Numa prece silenciosa agradeceu àquela que tanto fizera por ele, desde o instante que chegara à estância, ainda piá. 

         Seguiram trabalhando como se nada tivesse acontecido. Na semana seguinte, Nico havia ido buscar uns potros para domar, numa estância a poucas léguas dali. Quando chegou, procurando por ele, o Doutor Delegado e mais dois brigadianos, armados até os dentes, com uma ordem de prendê-lo. Sem muitas explicações e com a empáfia que o poder lhe compete, o delegado só disse que viera prendê-lo por ter roubado uma menina menor de idade, de sua família. 
           Clarice apavorou-se, com a situação. Aos prantos clamava ao Doutor Delegado, que não fora roubada, foi ela quem quis vir com ele e não voltaria por nada. Que ela o amava e jamais o deixaria. Estava muito feliz ao lado dele e ninguém iria impedi-los de continuarem sendo felizes. 
            Mas nada disso adiantou. O Delegado, com toda a arrogância que a lei lhe assegura, ordenou-a que não saísse dali, pois ela voltaria com ele, para ser entregue a seus Pais. 
           Bonifácio escutando aquilo saltou de empêlo num tubaino que estava ali só de buçal e em disparada foi ao encontro do Nico que já vinha a menos de légua da estância, trazendo os potros que fora buscar. 
         Ouvindo o relato do Negro, Nico não se conteve. O sangue ferveu nas veias. Numa disparada de quem foge da polícia, ele foi ao encontro dos que vieram buscá-lo. 
          Ao chegar à frente da estância, já viu um truculento delegado com cara de mau, gritar para ele, dando voz de prisão. Nico tentou argumentar, mas de nada adiantou. 
         Os três se vieram para cima dele, de arma em punho, como quem pega guri para surrar. Nico deu uns três ou quatro passos para traz e gritou com eles. Mas não adiantou. Os homens vinham como touro contra a cerca de olhos fechados. 
          Ele deus mais um grito. E nada. 
       Então arrancou de uma “pontuda”, cabo de ouro e prata, que nunca precisara para nada, a não ser cortar um fumo, cortar um tento, despontar uma lonca, mas que trazia sempre afiada como língua de sogra e quando um deles mais rápido meteu a espada contra ele, desviou-se num salto certeiro do ferro branco e no mesmo gesto, enterrou a bicuda até o “S”, ficando com o infeliz estaquiado à sua frente, com a boca golfando sangue e de olhos aberto, que nem um chibo quando morre. 
         Foi triste a cena. Mas de nada adiantou. 
        O Nico foi preso e condenado pelo crime que fora obrigado a cometer. Mas o Seu Juiz não quis saber disso. 
        - Matar um homem da lei é crime para apodrecer na cadeia. - ainda disse num ar debochado. 

        Solito entre as grades frias, sem a liberdade dos campos, num lugar distante de onde vivera toda uma vida, no silêncio que a alma traz, ele resmunga seus pensamentos: 
       - Porque a vida pregou-lhe tantas peças? - Lutara tanto por um amor e quando encontrara, a lei vem dizer o que pode e o que não pode fazer. 
         - Por onde ficam os sentimentos de um homem que só tem amor no peito?           - Sempre fora um homem de bem. Educado, trabalhador. 
         Ama a mulher que lhe ama. Nunca soubera que precisaria ter idade para amar e isso foi o que dissera o Doutor Juiz: “A menina é muito nova para saber o que é o amor”. 
          - Mas tem idade para isso? Para saber o que é o amor? 
         Tantas eram as perguntas, sem respostas que lhe atormentava, naquelas grades frias, na solidão de um cárcere que jamais imaginava existir. O esquecimento das pessoas, a saudade de Clarice, o carinho da dona Eleonor, tudo isso lhe faltava, nesse momento, além da liberdade, das tropeada, das domas, das madrugadas em volta de um fogo de chão. Nada disso ele tinha. Somente frio, saudade e dor. 

         Ao longo dos anos, Nico só recebeu visitas do Doutor Flores, que continuava cuidando dos interesses da família. Ficou sabendo por ele, que era filho do seu Alfredo e que havia herdado a estância, num testamento que a dona Ruth fizera antes de morrer. Ficara sabendo, também, das notícias do sofrimento de sua mãe e de sua amada Clarice, que apesar de ter voltado morar com os Pais, nunca o esquecera, mas que não podia visitá-lo, pois, além dele estar preso na Correição lá na distante Capital, era proibido à visita de mulheres. 
           Seu comportamento muito lhe ajudara ao longo desses anos. Uma década passou lentamente, ao tempo de uma eternidade. A mudança de década, no decorrer de tempo, com novas idéias, novos políticos, novos valores morais, tudo ajudaram Nico nessa difícil transição. 
         Doutor Flores conseguira a sua liberdade provisória. Era uma Sexta-feira, de sol radiante, quando Doutor Flores adentrou os corredores frios daquele lugar solitário e num sorriso largo trazia em suas mãos uma mala de roupas novas, um espelho, aparelho de barbear, um frasco de elostora e outro de perfume amor gaúcho. 
          - Como está meu rapaz? – Perguntou o prestimoso advogado. 
           - Como pode estar um homem, nesse estado, meu Doutor?
Respondeu-o. 
             - Espero que bem, pois há um mundo grande lá fora lhe esperando. 
           Nos olhos do Doutor Flores, havia um brilho, nunca visto ao longo desses anos de convivência, naquele lugar frio. Nico, que trazia um olhar tão triste e tão cheio de amargura, viu-o brilhar como uma lua cheia num fio de aguada, numa dessas noites lindas de verão. Sua alegria transformou-se em lágrimas. Sempre ouvira dizer que homem não chora, mas não poderia conter aquele sentimento que lhe saia do fundo do peito e lhe escorria pelo rosto, um tanto judiado pela baba grande, de alguns anos sem fazê-la. Não poderia guardar aquele momento que tanto esperava. Levantou-se do banco frio do qual estava acomodado e dera um longo abraço no seu amigo Doutor Flores, que em pé segurava a mala de roupas novas, à sua espera. 
           Tomou um longo banho. Fez a barba. Vestiu aquela roupa nova cheirosa e limpa e saiu caminhando lentamente ao longo dos corredores, cheios de grades e gente que ali estavam gritando para ele. Cruzou uma porta de ferro onde havia dois guardas. Chegou a um balcão quase na saída daquele prédio, onde um escrivão já lhe esperava, com um livro para assinar. Recebeu novos documentos.            Estava livre. Livre para ver o belo dia que lhe esperava lá fora. 
           Quando saiu, a rua não era mais a mesma. Haviam feito enormes calçadas, tinham casas bem construídas nos terrenos antes vazios. Logo mais abaixo do portão, uma carruagem com dois cavalos brancos, lhe esperavam, era o carro do Doutor Flores. Dentro dele, num longo vestido azul celeste com branco bordado feito à mão e um manto mais azul à cabeça, cobrindo os longos cabelos negros, estava Clarice, com os olhos cheios d’água. Quando o viu, derramou-se num pranto soluçado. Correndo ao seu encontro abraçou-o com muito amor. Deu-lhe um beijo, mais outro e mais tantos outros como se não acreditasse que estava ele, novamente livre, para viverem o grande amor que ela tanto esperara ao longo desses anos. 

         Nico e Clarice voltaram para a estância. Tudo lá estava mudado. Dona Eleonor havia envelhecido muito com passar dos anos longe do filho. A dor da distância e o sofrimento de ver um filho preso fizeram com que ela adoecesse, mas nada que um abraço do filho amado não curasse. Essa era a tal de dor da saudade. Que só tem um remédio e ali estava ele de volta. 
         A estância estava atirada. Pois dona Eleonor não sabia lidar com tudo aquilo. O capataz, logo que o Nico fora preso, mandou-se embora, levando o dinheiro da última tropeada. A peonada com aquilo fora embora, também, trabalhar noutras estâncias. Só havia ficado por ali o Bonifácio, cuidando o pouco que sabia. Mas esse também, só ficou, porque se juntara com a Tininha, filha da tia Mosa e fora morar lá na casinha que era o Nico, na costa da restinga. 
         A chegada do Nico e a Clarice na estância, depois daqueles longos anos só vieram trazer alegrias. A gringalhada do rincão veio para receber o amigo, mas também para saber das notícias lá da Capital. 
      - Queriam saber da correição? - Como é que era? - Como ele viveu nesses anos, preso? Essas coisas que ninguém compreende. 
        Nico recebeu a todos, sempre com o mesmo tratamento dos anos anteriores. Clarice já uma mulher, havia aproveitado esses anos longe do seu amado, para estudar. Aprendera a fazer quitutes, crochê, tricô, costurava com facilidade, já era quase modista. 
         Aos poucos as coisas foram voltando ao normal. A peonada começou a voltar para a estância. Nico repartiu a estância em invernadas, para isso precisou gente para tirar madeira: palanque, trama, mestre, contra-mestre. Foi nessa ocasião que ocasião que apareceu na estância um violeiro antigo, já conhecido por aquelas bandas, chamado Pedreirinha da Viola. Era ele que alegrava a peonada nas noites frias lá do galpão e foi ele, tocador de viola, o responsável da festa do casamento do Nico e Clarice. 
          Pedrerinha de próprio punho escreveu diversos chasques em forma de convite e mandou o negro da Constança, Piá estafeta, pegar um cavalo se meter rincão à dentro, levando o convite daquele que seria o maior casamento do rincão. Assim o fez. Três dias depois o guri voltou com os chasques todos entregues. 
         O casamento aconteceu no dia marcado, uma semana depois de terminarem o feitio das cercas. Era primavera, a peonada havia construído uma ramada, entre o galpão e a casa grande da estância. Mais ao fundo fez um forno de barro, para assar pão. As mulheres enfeitaram os galhos secos da ramada com flores de maria-mole, de laranjeira, alecrim, margarida, rosas em botão e tudo o mais que encontravam pelos campos do rincão. O Adão Grande ficou responsável pelos leitões, eram três assados num forno de barro. A Margarida ficou com as galinhas assadas. Mas tinha mais: pão de forma, ambrosia, figo seco, rapadura de melado e até mel de abelha, para a canha pura, que eram nem sei quantos barris.          O responsável pelo churrasco foi o João Brum, juntamente os guris do Plínio, fizeram um valo, botaram duas ou três carretas de lenhas, atravessaram um caibro de quase dez metros e com espetos de pitangueira, feito por eles mesmo, assou duas novilhas no ponto, coisa pra não botar defeito. 
         O Vigário veio lá do povinho, juntamente com o seu Juiz. Trouxe a papelada todas prontas, que o Doutor Flores havia feito e veio junto é claro, pois ele não poderia faltar nesse momento tão especial. 
         De madrugadita a algazarra já era grande. A gringalhada do rincão vinha chegando, uns de apé, outros acavalo. Tinha gente de carreta, de charrete, de tudo que é jeito, o importante é que vinham. 
         Quando a manhã pintou os raios de aquarela, sombras tão belas beijaram hastes coloridas, veio um perfume com cheiro de primavera, e o sol esperou para trazer a luz da vida. As pitangueiras choraram lágrimas de orvalho e entre os galhos o cantar dos passarinhos, em alaridos e gorjeios de alegria, saudaram o dia que chegou nestes caminhos. 
         A Clarice juntamente com dona Eleonor fizeram o vestido para o casamento. Um vestido longo, todo branco, com um enorme véu e uma grinalda com folhas de laranjeira, dizem que para dar sorte, nas mangas uns filetes de botões dourados. O Nico trajava um terno de linho riscado, com uma gravata de tope sob a gola de uma camisa branca de algodão, mais perecia um doutor advogado. O cabelo bem penteado lustroso de elostora que chegava alumiar naquele sol quente. 
           Chegou, ao altar montado na frente da estância, numa charrete toda enfeitada de folhas e flores do campo, tendo o Bonifácio, também num elegante terno preto, um chapéu de copa alta, de cocheiro, dois belos cavalos brancos de pêlo e crina lustrosos. 
            Quando chegou ao lugar, antes combinado, parou a charrete, desceu e ficou fazendo as honras para os noivos, que elegantemente desfilavam entre aplausos e gritos de sapucai, indo em direção do vigário que os esperavam para a benção matrimonial. 
            O casamento por si, já foi bonito. Mas o melhor veio depois. Ver aquela gente toda ali se divertindo. Uns dançando, outros tocando e cantando. Já outros comendo e bebendo a vontade. Homens, mulheres, crianças, todos feliz com a felicidade daquele casal que tanto lutou para ficar junto e que agora estavam realizando um dos seus sonhos. 
“São essas coisas do destino, o que está escrito, ninguém apaga”. 

         A festa foi-se noite à dentro. Tinha quatro ou cinco gaiterinhos do rincão e ali mesmo no terreiro fizeram um bailongo. Mas a coisa pegou fogo mesmo, na hora que um gaiteiro afamado lá da costa do Itu, pegou sua gaitinha de oito sopros, era o famoso compadre João Milico, que chegou metendo banca, causando o rebuliço das mulheres que ali estavam e ciúme do macheirio.  Candeeiros acesos, espalhados pelas cabeças dos palanques, além de uma lua cheia iluminavam quase todo o rincão, deixando aquela festa ainda mais inesquecível. 
          Tinha muita comida, muita bebida, muita música de violão gaita e pandeiro. A borracheira atirada pelas macegas. Dormiam um pouco, acordavam caiam na dança, bebiam de novo e voltavam a dormir. 
           Foi à maior festa que rincão já teve, até hoje. Só não foi a melhor. Há melhor aconteceu uma semana depois. Dizem até que foi no casamento do Nico que o Chico Larida e o Neri Fachada se combinaram de, no Sábado seguinte, bater uma surpresa na casa da Tia Daia, 
          A tia Daia era uma das pessoas mais antigas do rincão. Tinha quase uma dúzia de filhos e quase todos eles metidos a artista. Um era gaiteiro, outro tocava violão, outra cantava, andavam se refrestelando pelos domingos nos bolichos, com a gaitinha embaixo do braço. 
         Nico a princípio foi contra, mas depois acabou concordando. Aquele sábado quente de primavera estava pedindo por uma algazarra. 
       O macherio do rincão saíra na frente, logo após o anoitecer, enquanto a mulherada ia, mais atrás nas carretas, encontrando-se com o restante do pessoal num capão de mato que ficava há poucos metros da casa da dona. 
       Clarice nunca fora numa coisa assim. Estava um pouco apreensiva. Andar por aquela noite, apesar da lua cheia que clareava quase que um dia. O cheiro do campo. O orvalho caindo. O frescor da noite, tudo tinham toques de romance, mas ela estava preocupada, pois não sabia como seriam recebidos. 
        Quando chegaram, bem próximo da casa, o alarido dos quero-queros, o alarme da cachorrada, a correria dos homens, direto ao poleiro para pegar as galinhas, tiros de garrucha para o alto, tudo lhe assustou ainda mais. Nico vendo o estado de sua amada abraçou-a e tentou acalmá-la, enquanto uns invadiam a casa e já iam derrubando as paredes dos repartimentos internos, para deixarem maior, tornando um salão de baile, para a dança da gauchada. 
          A tia Daia, ainda com cara de sono, aparecia para dar as boas vindas, pois de nada adiantaria dizer coisa diferente. Pois ela, também, fora acostumada a bater surpresa na casa dos outros. 
        Na madrugada enquanto uns dançavam, as mulheres pela cozinha preparavam galinha com arroz. Bolo frito com açúcar e canela. Mate doce para as damas e mate amargo para a peonada. Os mais afoitos já traziam os borrachão de canha, ou algum vinho feito em casa, forte que nem vinagre. E assim amanheciam comendo e bebendo. Dançando e cantando até o sol ir alto. 
            Nico e Clarice nesse dia não se demoraram muito. Festejaram um pouco, mas depois foram embora, queriam aproveitar o Domingo, para começarem a viagem no encontro da família dela. Pois desde que fora ao encontro do Nico, quando saíra da correição, que Clarice não encontrava seus Pais, nem soube mais notícias de seu tio Adão que se encontrava doente. 
         Foram três semanas de viagem. Mas valeu a pena, porque a saudade que ela tinha dos seus Pais era muito grande. Nico tinha muito, o que conversar com eles. Gostaria de pedir desculpas pelos erros cometidos no passado. Gostaria, também, de ajudá-los levando-os para morarem com ele lá na estância, visto que a gora eles eram uma família, que tinham posses, campo, gado, cavalos, lavouras de milho, de mandioca, espaço à vontade para plantar e colher. 
          Nico e Clarice ficaram por ali alguns dias. Mas na estância muita coisa lhe esperava. Dona Eleonor sentia-se velha para cuidar de uma enorme casa. A peonada tomava conta do campo. Nico preocupava-se somente com as negociações, comprando e vendendo boi. Quase todos os dias tinham um ou outro ali na estância, negociando gado. 
          Numa manhã, Clarice acordou enjoada, pouco disposta, tudo o que comia não fazia bem. Dona Eleonor de pronto já viu que ela estava grávida, pois além dos sintomas, já dava para sentir a transformação no corpo dela. Então à noite, quando Nico estava mateando no galpão, junto com a peonada, ela deu-o a notícia, que um “pithiãozito” pulsava dentro dela, na mais bela magia de ser Mãe. 
        A noticia de mais um herdeiro na estância, correu como pólvora espalhando-se pelo rincão. Logo vieram as visitas, roupas, enxovais, brinquedos feitos de madeira. Nico escolheu o melhor potro da tropilha para ser manonciado a capricho, para que fique bom de arreio, para este que chegaria trazendo mais alegrias, selando o amor daquelas duas criaturas. 
         Passaram-se alguns meses e Clarice estampava um ventre de lua cheia: tão redondo, tão bonito, tão cheio de vida. Sabia ela que ali dentro tinha uma vida, resultado do amor que tanto lutara que tanto sofrera, mas na certeza de ter feito a coisa certa, correr atrás do seu amado. 

          Alguns meses após o nascimento do Vinícius, filho de Nico e Clarice, seus Pais chegaram à estância, com a mudança numa carroça puxada por dois cavalos magros, quase sem vida de tanto cansaço. Além deles seu irmão, um belo moço, que vieram prontos para ficar. 
Daí por diante tudo seguiu como um sonho. 
Pois “são essas coisas do destino, o que está escrito ninguém apaga.” 

Fim