POESIAS

A Lágrima

É a dor que vem da alma,
Em gotas de água e sal...
Que escorre pelo fio das pupilas,
E se derrama como um rio,
Submerso às entranhas da dor.
Que faz o vivente mais bruto,
Quedar-se diante de si,
E na relíquia destes cristais,
Sentir-se um pouco mais humano.

A lágrima é mais que magia,
É a forma doce do amor...
Que vem em gotas de pranto,
E transborda seu remanso,
Com força de corredeira,
Onde os olhos são cachoeiras,
Deste rio que há em nós,
Que sai em busca da foz,
Para novamente ser mar;

Por isso que ela é salgada,
Por isso que ela é cristalina,
Pois a lágrima jamais termina,
Nem que chore a vida inteira,
Sempre haverá uma gota,
Pra mais singela ocasião,
Transbordando do coração,
Mar e coração são infinitos,
E chorar é o que faz bonito,
Diante da luz do perdão;

Quem diz que os fortes não choram?
Quem diz que chorar é fraqueza?
Basta olhar para a natureza,
Onde até os bichos imploram...
Talvez num jeito animal,
Que só de pensar me arrepia,
Vendo uma cena bravia...
Da morte que vem na parelha,
Onde até um touro se ajoelha,
Chorando a dor, da sangria;

Por isso que às vezes choro,
E chorar até me faz bem,
Porque me solto das amarras,
Que me prendem a ignorância,
Se, aprendi quando criança,
Que homem que é homem não chora,
Alheio a própria razão...
Da vida maula que medra,
Só não chora, quem tem uma pedra,
No lugar de um coração;

Pois não há forma mais doce,
Quando um amigo abraça chorando,
Ou um coração se aliviando...
Num adeus de despedia,
Vão cicatrizando as feridas,
E a lágrima parece que cura,
A dor mais triste das criaturas,
Que se fecham no seu luto;

O luto que a noite retrata,
Fechada em véu de negrume,
Mas ainda traz o perfume,
Que inunda campos e matas,
Fazendo me dar por conta,
Quando a lua some de vez,
Que o céu também é pequeno,
Goteando lágrimas de sereno,
Da noite chorando a viuvez;

Então porque não chorar?
Porque não se inundar de pranto?
Se a lágrima tem o poder,
De lavar as almas pecadoras,
Que se acham defensoras,
Desse barbarismo cruel...
Que ainda existem ao nosso lado,
Se até o Cristo, crucificado,
Chorou as lágrimas de mel;

Fim
___________________________________________
Anjo Negro

Uma velha cruz de pau ferro,
Bem junto a um capão de mato...
De braços abertos pra vida,
Sem uma circunscrição,
Sem uma data de partida,
Pois quem ali descansava...
Era alguém que nos cuidava,
Desde o tempo da escravidão;

Tia Negrinha, pra gurizada,
Negra véia pra os antigos...
Mas, hoje, ainda me lembro,
Seu ranchinho de leiva e taquara,
Coberto de Santa-fé...
Uma portinha pequena,
Um fogão feito de barro,
Ao fundo um catre de couro,
Com roupas brancas, alvinhas,
E as panelas pareciam espelhos,
Areadas à pedra e sol...
E mais na frente à Santinha.

Era somente uma peça...
Não havia quarto, nem cozinha,
Mas ela não vivia sozinha,
Dizia com sorriso largo,
Quem está com a Virgem Maria,
E tem fé no Menino Jesus...
Talvez sofra pra carregar a Cruz,
Mas não morre de solidão;

Foi ela que nos ensinou...
(Mesmo sem ler ou escrever),
O poder de uma oração.
Quando juntava as mãos,
Fechada dentro de si,
Parecia que vinham luzes do céu,
E ela envolta em seu véu,
Tão alvo, mais alvo ficava,
Como se alguém lhe falava,
E ela só agradecia.

Ás vezes eu me perguntava,
O que tinha para agradecer?
Se aquele modo de viver,
Tamanha era a sua pobreza,
Mal tinha um pão na mesa,
Mal tinha um prato de bóia,
E os anos todos que sofrera,
Com a maldita da escravidão,
Mas ela dizia que o perdão,
É o alimento pra alma;

Na infância eu nunca entendi,
Só com o tempo pude compreender,
Que existem anjos entre nós...
Porque se isso não é verdade,
Como é que a gente explica,
A doçura da tia Negrinha.
De onde ela tirava palavras tão belas?
De onde ela tirava aquele sorriso de luz?
E as orações que fazia?...

Um dia tia Negrinha foi embora,
E eu não estava aqui para vê-la,
Mas se quem morre vira estrela,
Sei que é ela que me ilumina,
E até hoje ainda me ensina...
As lições que eu não entendia,
Todos nós vamos partir um dia,
Sem um Adeus de despedida,
Deixando uma cruz solitária,
Com a data fria da partida.

Só, hoje, eu pude entender,
A velha cruz sem data...
Se a lápide fria retrata,
O tempo que aqui passamos,
É porque somos simples humanos,
E o humano nasce e morre...
Tia Negrinha era diferente,
Na forma mais terna de um ser,
Pra que possamos compreender,
Que a vida não é só riqueza,
E num ser há mais que beleza,
Há coisas que os olhos não vêem,

Tia Negrinha era diferente,
Só, hoje, eu pude entender,
Era um anjo junto da gente,
E anjo...anjo não pode morrer!

Fim
___________________________

Hoje eu queria falar com Deus!

Hoje eu queira falar com Deus!
Mas as portas do templo, fechadas,
Guardando silêncio e vazio...
Na angústia que me aperta o peito,
Calando esta alma, triste e só.

Sentado enfrente da velha igreja,
Tentando encontrar respostas vãs,
Deparo-me com a realidade crua,
Que atormenta olhares cansados,
E rebusca entre as paredes frias,
A fé que boceja em forma de oração;

Hoje eu queria falar com Deus!
Porque meu rosto cansado...
Vergado pelas rugas do tempo,
Que se contraem, na dor efêmera,
Dos que sofrem calados...
Distante de amores...
Distante das casas...
Distante da vida...
E do mundo que é meu;

O sorriso farto e olhos esbugalhados,
De um menino de pés descalços...
Levam-me para uma infância,
Longínqua e bela...
Onde o verde de um campo vasto,
Desenhavam coxilhas nuas,
Como um corpo de moça em suave retoque,
Espelhada no azul celeste...
Em cristais de vidro e barranca;

A mão gorda e branca...
Que me acena na ingenuidade de um Adeus,
E as bochechas rosadas,
Balbuciam palavras doces,
Enquanto seus pés branquinhos,
Desenham formas na terra molhada;

Ao meu lado, um velho sorrindo,
Escorrega, seus olhos, nas folhas de um livro,
Balbuciando histórias que ao tempo se foi,
E uma menina sapeca...
Ninando suas bonecas...
Aconchega as mãos brandas em suave afago,
E lambuza um rosto, de rugas fartas,
Com a doçura de um beijo;

Hoje eu queira falar com Deus!
E atento as portas trancadas,
Rodeadas de pedras e cimento,
Arquitetadas a preço de ouro,
E sacrifícios humanos...
Fechadas aos que mais precisam,
Repousam na descrença de tantos,
Que vivem sem rumo,
Sem paz e sem pão;

Atento à dor da minha alma,
Eu nem percebi, na ingênua busca,
Que Deus é maior...
E não vive trancando...
Em templos afortunados,
De altares e Santos dourados,
Onde se depositam pecados,
De bocas infiéis;

Só hoje, pude perceber:
No vôo de um pássaro...
Num sorriso de criança,
Na dor que separa os iguais,
Na luz de um sol, que enche os olhos,
Fecunda sonhos e farta sorrisos...
A própria imagem do Deus que eu busco,
Foi neste momento que pude compreender,
O que existe em cada ser,
Em cada vida... em cada olhar,
E o Deus que eu vivia a procurar,
Encontrei aqui, guardado dentro de mim!

FIM
__________________________________________

Pandorga

Papel, taquara, carretel e linha...
E um sonho de voar...
Assim foi a minha infância,
Tentando chegar ao céu,
Que se espelhava na inocência,
De um olhar azul;

Quando o vento norte...
Trazia a ira das mulheres,
Com seus topes nos cabelos,
Ou alvos lenços na cabeça,
Os meus sonhos de voar,
Brotavam na ilusão das pandorgas.

E a força de um corpo frágil,
Balançava-se entre as macegas,
Que bailavam floridas...
Nas primaveras da minha infância;
E ao poucos, subindo ao céu,
Na ilusão de ser pássaro...
Carregando as cores mais belas,
Sustentada por uma linha tênue,
Que calava os meus sonhos...

A cada instante que subia...
Com seu bailado de cores,
Levava a doce ilusão...
Que acalanta pobres meninos;
As horas que eu, ali, passava...
Olhando ao longe minha parceira,
Bailando com seu rabo de pano,
Na imensidão de um azul...
Bordado de nuvens passageiras;

Com ela aprendi muitas coisas:
(Coisas que jamais esqueci!)
Pois a pandorga é o retrato da vida,
Em cada metro de fio que sobe...
São nossos dias... nossas horas...
Às vezes, alçamos vôos,
Na mais terna leveza...
Às vezes caímos...
E a queda nos machuca a alma,
E nos ferem os sentimentos...

Por vezes o vento é fraco,
Ou não há espaço para liberdade,
E ficamos presos na nossa ignorância,
Ou na arrogância que alimenta cada ser;
Outras vezes o vento é forte...
E nos derruba do sonho de voar,
Trazendo o medo que aflige a nossa alma.
E que atormenta os momentos mais tristes...

Mas quando o tempo e o vento,
Juntam-se aos sonhos...
A pandorga sobe, baila, encanta...
E navega solitária na imensidão
De um mar de nuvens...
Beliscando os raios de um sol dourado,
Que matiza o verde dos campos...
O topete das flores...
O cantar dos pássaros,
As primaveras floridas;

Bem assim é a nossa vida!
- Há os momentos de beleza,
- Há os momentos de angústia,
- Há os momentos de calmaria...
E o fio de linha daquele menino,
Chegou ao fim do carretel...
E a pandorga que foi parceira,
De uma infância feliz...
Soltou-se das mãos frágeis,
Perdendo-se nesse infinito azul,
Talvez encontrando o céu das pandorgas,
Dos sonhos... de outras vidas!

E nunca mais pude vê-la...
E nunca mais pude encontrá-la,
Tal qual a pandorga é a vida...
A minha infância se foi,
A juventude também,
E o tempo trouxe-me a longa idade,
E hoje, no fim da linha da vida,
Só há um carretel de solidão...
Que me prende ao nada...
E a ninguém,
Atormentando os meus dias,
Tão perto do céu das pandorgas!

Tento reencontrar os sonhos,
As pandorgas que mundo levou...
Mas sei que as mãos frágeis...
Não encontrarão forças,
E o bailado, livre e leve...
Daquele papel e taquara,
Com seu rabo de pano,
Que tanto encantara outros olhos,
Perdeu-se, dando fim aos meus dias,
Depois que rebentou,
A linha tênue da minha vida!

Fim!
___________________________________

A Magia dos Sonhos

Três homens e quatro cavalos!...
Eu sempre tentei compreender...
Qual o significado dos sonhos!
O que esconde essa magia...
Que faz um ser humano,
Viajar numa imensidão...
De imagens tão diferentes,
De distâncias infinitas,
De espaços tão pequenos;

Por muito tempo os meus sonhos,
Foram em preto e branco!
Muitas vezes eu vi a dor...
Vi a guerra, o ódio, o rancor...
Pessoas sofrendo nos meus sonhos,
E eu sofrendo nos meus dias!

A minha vida de tormentos,
A pressa com o que eu andava,
A solidão rodeado de gente...
A agitação das ruas cheias...
A pressa de pessoas indo e vindo,
E outras nas calçadas frias,
Parece que tudo se refletia,
Tornando os meus sonhos,
Sem vida, sem cor, sem alegria;

Um dia tentei mudar...
Olhar mais para a natureza,
A cor do céu... As flores... o mar,
A vida que paira diante à janela,
Os raios cintilantes de um sol de abril,
O cantar dos pássaros, as aquarelas,
E a noite que cai tão bela...
Fartada de estrelas e lua grande;

Então mudaram os meus sonhos,
Comecei ver pinceladas de cores...
Sem guerra, sem ódio, sem dores,
Vi-me vagando por lugares ternos,
Viajor de campos eternos...
Rodeado de imagens calmas...
Senti-me novo, uma nova alma,
Em cada sonho que me refletia;

Três homens e quatro cavalos!...
Um campo vasto florido...
Apareciam repentinamente...
Vagando pelos meus sonhos;
Então busquei reencontrar-me,
Na vida rude em que levo...
E buscar em cada pessoa,
O Deus que existe num ser,
Com sua crença e diferença,
Sem julgo ou sentença...
Com suas vidas em comum;

Andando pelas ruas frias...
Onde seres maltrapilhos...
Desfilam suas roupas sujas,
Carregando as casas de papelão,
E a carne rija e cansada...
Estampando olhos famintos,
Envaidecidos pelas drogas,
Alimentando almas tão frias,
E distantes deste mundo carnal;

Adentrando em casas torpes...
Vejo corpos ardentes
Expostos em vidraças sujas,
Como carne erre ondas,
De açougues fétidos,
Na espera imoral,
De vender o corpo,
Por troco de nada;

Saio com a idéia louca,
De mudar o mundo em que vivo,
E vagando na boca do lixo.
Só encontro olhos de bicho,
Matando a fome nos restos alheios,
E mãos trêmulas de embriaguês,
Que mal seguram a dor do vício,
Terminando a vida em balcões vazios;

Não sei se é sonho, ou se é realidade!
Mas vejo o mundo com outros olhos,
E a dor de tantos que hoje vagam,
Aperta-me a alma, colorindo sonhos!
E de novo vejo, desfilando calmos,
Sem saber o porquê!...
Nem para quem eu falo...
Lá vêm três homens e quatro cavalos,
Tateando sonhos na direção de mim;

Talvez eu tenha só me encontrado...
Ou quem sabe o mundo mudou de cor,
E aqueles sonhos que eram preto branco,
Foram pincelados nas tintas do amor;
Talvez a idade que chegou de vez,
Encurtando o passo que já são raros,
Mas deu um tempo de encontrar o tempo,
De ver o mundo com olhos claros;

E os sonhos seguem a pintar ocasos,
Com tintas frescas de um brilhar agreste,
E três homens chegam, com quatro cavalos,
E eu os reconheço, são seres celestes...
Há muito tempo que vêem em sonho,
Talvez a vida que quis assim...
Os dois de branco, são querubins,
Que trazem encanto aos olhos meus,
E o outro, por certo, deve ser Deus...
E vem trazendo um cavalo é pra mim!

FIM
____________________________________________

Meu Jeito

Sé é esta boina basca?...
Ou é a bombacha Pampeana?
Se é minha alma aragana,
Que pulsa dentro do peito?
Se é este o meu defeito?
De andar sempre pilchado...
Com um lencito esparramado
Sobre a gola da camisa?
Se é por não conhecer divisa?
Então, qu´eu seja condenado!

Se esta guaiaca que uso...
Não tem ouro e nem prata?
E um simples par de alpargatas
Com cinzas d’algum galpão?
Se a verdadeira tradição,
Tem regras pra sobrevivência?
Então, eu tenho a consciência,
Que a coisa está indo mal!...
Me desculpe “os maioral”,
Mas não me apego a conveniências;

É muito bom, fazer leis...
E ditar regras pra esta gente!
Desfazer do que é presente,
Gritar as glórias do passado,
E lá num gabinete, encostado...
Na sombra de um movimento,
Que só mantém o sustento,
Graças às migalhas do povo...
Que não se importam com o novo,
Pois vivem do sentimento;

Pois um gaúcho não se mede,
Por aquilo que ele usa...
Conheço gente que abusa,
Fazendo do cargo, um poder,
Muitas vezes, sem conhecer,
Os sentimentos verdadeiros...
Parece um cabide campeiro,
Cheio de trastes e utensílios,
A própria vergonha dos filhos,
Mas com pose de estancieiro;

Me perdoem, meus Patrícios!
Se o meu pensar é diferente...
Mas não é a pilcha da gente,
Nem a estampa, nem as cores,
Me perdoem, meus Senhores!
O que vou falar de uma vez,
Eu não nasci, pra ser rês,
E nem tão pouco usar canga...
Mas até pelado, numa sanga,
Sou mais gaúcho que vocês;

Porque aqui, aonde eu vivo...
E lutamos para ser liberto...
O único movimento certo,
Que hoje é quase uma graça,
É ver tanta gente na praça,
Fazendo tudo ao contrário...
Vergonha do chão caudatário,
Alheio às leis, que eu falo,
Dos que só conhecem cavalo,
Nas folhas dos calendários;

Se um dia alguém escreveu.,
Regrando a própria pesquisa,
Mas pra’o Gaúcho não há divisa,
Não há cerca, nem fronteira,
Não é o pano dessa bandeira,
Que tremula em mastro de ouro,
Aonde a empáfia faz coro...
E a pilcha virou concurso,
Só para manter o discurso,
Dos que rebuscam seus “louros”;

Dizem que é castelhana,
Esta bombacha que uso...
Mas, ninguém vê o  abuso,
Dos que andam bem pilchados,
Desfilando de chapéu tapeado,
Como os donos da verdade...
Só pra manter uma identidade,
Timbrada à grito e grossura,
Como se educação e cultura,
Não coubessem em sociedade;

Pois o tempo do coronelado,
Da imposição e do poder...
Do mandar sem conhecer,
São coisas do passado,
Que um dia foi enterrado,
A sete palmos, neste chão...
Pois, hoje, não há razão,
Pra ditar normas e regras,
De uma cultura que é cega,
E valoriza só quem é Patrão;

O velho vestido de xita...
Que era tão lindo nas prendas,
A flor de laranjeira, as rendas,
Foram trocados por veludo,
Talvez para avalizar estudos,
D’alguma pesquisa fajuta...
Dos que se vangloriam das lutas,
Sem conhecer a verdade,
Regrando a própria sociedade,
No interesse que desfruta;

Quando um cargo vira emprego,
Dos que tem gana de aparecer,
E a valorização de um ser,
Está naquilo que se usa...
Quando o interesse se cruza,
Com a arrogância e a maldade,
As regras escondem verdades,
Que chega, até, ser abuso,
Onde um Negro era escuso,
De viver em sociedade;

Pois a tradição está na alma,
É parte da vida da gente...
Está no amor que se sente,
Fincado dentro do peito,
Está no errado, no direito,
No que pensa e não nega...
Está no campo, na macega,
No sentimento e na arte,
Tradição está em toda parte,
Só nunca...nunca aceitará regra.

Fim
___________________________________________

Numa Sombra de Carreta
Ney Moreira da Silva e Paulo Ricardo Costa

Foi numa sombra de carreta,
Que este Rio Grande se ergueu,
Num tempo que se perdeu...
Por entre a poeira e a distância,
Quando o sonho e a esperança,
Pareciam, até, serem reais,
Os Homens tinham ideais,
Na fé que vinha de herança;

No silêncio de uma estrada,
Num coxilhão ou descampado,
O rangido triste e marcado...
Era como gritos de alerta,
De uma Pátria que desperta,
De um sono de retrocesso,
Ponteando notas ao progresso,
E para memória dos poetas;

Quatro juntas afinadas...
Desde o coice até a ponta,
E um sonho tomando conta,
Nas mãos férteis do carpinteiro,
Varilha, mata-bois e o fueiro,
Mesa, seva e o assoalho...
Chavelha, muchacho e cabeçalho,
E um sonho de carreteiro;

Um toldo, feito a capricho...
Para os invernos terrunhos,
Desenhado de próprio punho,
Coisas que a vida ensina...
Cambota, raios e buzina,
Rodados, cheda e cambão,
São partes de um carretão,
As tábuas de madeira fina;

Canga leve e bem feita,
Quatro canzis de primeira,
Ajoujo, brocha e rejeira,
Aspas de lua minguante,
E a carreta vai adiante...
Vergando os sulcos da terra,
Bombeando campos taperas,
Na solidão de um andante;

Por anos foi deste jeito,
Levando bóia pra o povo,
Só de lembrar, me comovo,
Daquela imagem que não sai,
E até uma lágrima me trai...
Cortando a fios de navalha,
Bombacha rota, chapéu de palha,
E um sorriso do meu Pai;

E sempre que ele voltava...
A carreta nunca vinha vazia,
Nos seus olhos a alegria,
Deste mundo que ele quis,
Nos meus sonhos de aprendiz,
Já me via um carreteiro...
Levando ao mundo povoeiro,
Nosso jeito de ser feliz;

Mas, um dia veio o progresso...
Rugindo a berro de motor,
E o carreteiro perdeu o valor,
Nesta ganância desenfreada,
Já não haviam mais pousadas,
Pelo silenciar das sarjetas,
E nem sombras de carretas,
Pelo beiral das estradas;

O mundo, hoje, tem pressa,
E os bois tranqueiam lentos...
O Homem já não tem tempo,
Com suas máquinas potentes,
Lembram-se do que é presente,
Vivendo o mundo agitado,
Como se os tempos passados...
Não importassem pra gente;

Pra muitos, não restaram nada,
Vagando diante as cancelas...
Ou pelas toscas favelas,
Na parte fétida das cidades,
Na mais cruel desigualdade,
Que separa, seres iguais...
Vivendo pior que animais,
Frente aos olhos da sociedade;

E o “marimbondo” da picana,
Hoje, me crava o coração,
Com a dor do seu ferrão,
Nesta saudade que afago,
Vivendo longe do pago...
Quando rebusco os sentidos,
Ainda escuto um rangido...
Pelas lembranças que trago;

Àquele sonho de carreteiro,
Que pelo tempo se foi...
Restou-me a sina dos bois,
Diante de grades e cimentos,
Ajoujando ressentimentos...
Com os mesmos olhos de bicho,
Comendo as sobras do lixo...
Por entre dor e sofrimento;

É assim que, hoje, me encontro,
Excluso ao mundo que fiz...
Sou mais um ser, infeliz...
Sem teto, sem casa, sem chão,
Vertendo sangue das mãos,
Junto ao esgoto, das sarjetas,
Numa sombra de carreta...
Carregada de papelão;

Fim
______________________________________________
 Quando o Pai foi embora

Eu era muito pequeno,
Mas me lembro bem...
Quando o Pai foi embora;
Era uma manhã fria...
A geada branqueava os campos,
E o vento gemia entre as paredes...
Fumaceadas de um galpão;
O sol não veio naquele dia!...
Mas vieram muitas pessoas;

O velho cusquinho coleira...
Que todos as manhãs se enrolava,
Entre as botas do meu Pai,
Choramingava no silêncio do galpão;
O zaino velho da encilha,
Costeava as cercas do potreiro,
Talvez sentindo a falta dos bastos,
Talvez sentindo a ausência do amigo...

Meu Pai dormia sobre uma mesa,
Bem ali na sala da frente...
Com a sua roupa mais bonita;
Vi as mulheres chorando...
Vi minha Mãe chorando,
E as pessoas que chegavam,
Todas iam ver o meu Pai,

Na minha inocência de criança,
Não sabia o porquê!
Lembro quando a Mãe me disse:
Que o Papai foi embora,
Pois, agora ele é uma estrela,
Que brilha lá no céu...
Ele fora fazer uma casa nova,
E que um dia viria nos buscar!

Aquele dia foi muito triste!
Veio muita gente ver meu Pai...
Depois todo mundo foi embora,
E nós ficamos lá sozinhos...
Muitas vezes vi Mamãe chorando,
Muitas vezes vi Mamãe rezando,
E me ensinou em suas preces,
Falar com o meu Pai;

Contou-me várias estórias:
Das pessoas que viram anjos.
Como nascem as estrelas.
E que há um céu muito lindo,
Com muitas flores...e pássaros,
Onde um dia iremos nos encontrar,
Para seguirmos juntos a mesma vida;

Eu tinha muita saudade de meu Pai!
Mas não queria chorar...
Para não ver a minha Mãe triste;
Uma noite, quando dormi...
Meu Pai veio me visitar;
Tinha uma roupa muito branca,
Um sorriso largo...
Uma luz brilhante.
Levou-me pela mão por campos lindos,
Sangas, rios, flores, pássaros...
Tudo que minha Mãe tinha me contado;

Tinha um cavalo igual ao zaino velho,
E cusquinho coleira e brincalhão,
Que nem o que nós tínhamos aqui;
Sentamos numas pedras grandes,
Lá na costa de uma sanga...
E ele me contou coisas que nunca
Tinha falado antes;

Me deu beijos e abraços...
Porque antes Papai não abraçava...
Caminhamos por longas estradas...
Conversamos como dois amigos,
Eu ouvia atentamente seus conselhos,
Coisas que meu Pai nunca...
Tivera tempo de fazer;

Mostrou-me o lugar onde morava,
E muitas pessoas que ali estavam...
Depois de algum tempo...
Ele me deu um beijo...
E se foi caminhando tão longe,
Deixando-me ali chorando,
Chamando por meu Pai...

Então acordei...
Com os olhos encharcados de lágrimas...
Sufocado no meu berço de criança;
Nunca falei isso para ninguém...
Daquele noite em diante...
Muitas vezes encontrei o meu Pai,
Sempre o mesmo sorriso...
E as doces palavras que
Me soavam como conselhos,
Os braços abertos num afago de amigo,
A mão, sem calos... e aquela luz
Iluminando os meus passos;

Nunca mais fui para baixo da mesa,
Chamar por ele...
Como eu fazia nos momentos de solidão;
Ou nas vezes em que ele tropeava,
Ficando dias longe da gente;
Nunca mais reclamei da sua ausência,
Pois entendi que há algo maior...
E que uma vida não acaba,
Quando o Pai vai embora;

Pois até hoje, pelo vento,
Escuto o seu assobio mostrando-me,
Que ainda está junto de mim,
Caminhando do meu lado...
Como nos meus sonhos,
E iluminando os meus dias,
Com aquela luz tão branca,
Tão alva...
Que só os anjos podem ter.

Cresci como crescem os meninos,
Tentando seguir os passos de seu Pai...
Muita gente não compreendia...
Quando ensinei outro cusquinho coleira,
A se enrolar nos meu pés...
E soltei o zaino velho para
Morrer num fundo de campo;

Nunca mais eu perguntei,
Porque um Pai vai embora?
Desde o dia em que compreendi,
Que os Pais são anjos...
Que Deus coloca ao nosso lado,
Para nos guiar pelas estradas da vida,
Sempre na busca do bem!
Sempre no caminho mais leve,
E que nos sustenta nas hora da dor;

Compreendi também,
Que um Pai não morre...
Apenas parte pra um mundo novo,
Porque aqui onde vivemos,
A vida não dá tempo,
Para um carinho de Pai e Filho!

FIM
________________________________________________

Romance do Negro Juca

Fim de tarde mormacenta,
Sangrando nuvens cardadas,
E junto a uma cruz, cravada,
Eu me ajoelho em oração...
Momento triste e de solidão,
Rodeado de mato e mutuca,
Que o corpo do Negro Juca,
Descansa à sete palmos, no chão;

Na cruz falquejada às pressas,
Não tem data e nem nome...
Mas o certo é que jaz um homem,
Quem muito tinha valor...
Que carregou o peso da cor,
De ser negro, preto, retinto...
Quando a sorte vem no instinto,
Mata e morre por amor;

Lembro quando chegou na estância,
Àquele piazote esmirrado...
No fio do lombo dum tostado,
Que mal trocava o passo...
Tão grande era o cansaço,
Daquelas duas criaturas,
Dois vultos na noite escura,
Dois corpos num só espaço;

Chegou, e por ali foi ficando...
Era o mandalete da estância,
Negrito bueno, de confiança,
Tinha destreza e aprumo...
Apelidado de “pau de fumo”
Não se importava com os risos,
Encontrava em fim, o paraíso,
Encontrava em fim, o seu rumo;

Se encantou com a criançada,
E até brincava com elas...
Sinha Flor menina bela...
Linda como outros tantos,
Tinha um sorriso de encanto,
Olhos dolentes e meigos...
Pareciam encantar-se com o negro,
E a triste regra dos brancos;

O Estancieiro diversas vezes,
Veio ralhar com o negrinho,
Que ficava por lá sozinho,
Olhando as outras crianças,
Sabia manter a distâncias,
Que separa os desiguais...
Pois tempo nunca é demais,
Pra quem não perde a esperança;

E assim o negrito, cresceu...
Em poucos anos, se fez moço,
E já se escorava no alvoroço,
Terceando o ferro branco,
Bueno de lida e no campo...
Deixou de ser mandalete,
Fez-se o melhor dos ginetes,
Honesto, firme e franco;

No ponteio de uma tropa...
Ou cuidando a cavalhada,
Despontava a madrugada,
Coplando versos ao vento,
Tinha agruras no pensamento,
Guardando a dor da distância,
A parte negra de uma infância,
Que chuleava um sentimento;

Negro Juca se fez homem...
E ganhou o respeito da peonada,
Era a pura estampa moldada,
Em quase dois metros de altura,
Negro, como a noite escura,
Forte, valente e peleador,
Que tinha um orgulho da cor,
Na mais robusta figura;

Um chapéu de aba grande...
Beijando a gola de um pala,
Uma barba preta e rala,
Redesenhando o seu rosto,
Onde o vermelho exposto,
De um lencito maragato,
Pintava um xucro retrato,
Na fria noite de agosto;

Pois é esta noite que falo,
De uma história mal contada,
Onde até os contos de fadas...
Se perdem em nuances de cor,
Negro Juca e Sinha Flôr
Tinham um romance escondido,
Sem nunca terem percebidos,
O preço alto de um amor;

Ninguém sabia na estância,
Nem tão pouco imaginava,
Que a moça branca amava,
Àquele Negro retinto...
São essas coisas do destino,
Que o tempo jamais explica,
Porque que um moça rica,
Vai se encantar c’um teatino;

O pior de tudo, que a moça,
Filha única do estancieiro,
Tapada de jóia e dinheiro...
Não soube esconder o segredo...
E nos braços fortes, do Negro,
Se rebuscava de um calor...
E entregava-se ao amor,
Sem pressa, sem juizo, sem medo;

O catre quente de um galpão,
Por entre trastes e encilhas,
Viu-se a noite tordilha,
Acolher a voz de um trovão,
Quando o fogo dum mosquetão,
Abriu um clarão no céu...
E a parte negra de um véu,
Ecoou em gritos, de não;

Mas a distância era curta...
Entre o Negro e o atirador,
E ainda sentido o calor,
De um amor que não apaga,
Com a memória meio vaga,
Talvez é a morte que mande,
Viu um corpo golfando sangue,
Bem sobre o “s” da adaga;

Assim dois corpo tombaram,
Na mesma morte que chega,
É a parte cruel e negra...
De quem só queria amor,
E a moça envolta ao pavor,
Clamando à gritos de solta,
Chamando os dois de volta;
Guasqueando os golpes da dor;

De nada adiantou os gritos,
De nada adiantou o pranto,
Se o amor de preto e branco,
O mundo injusto condena,
Pra sempre carregar às penas,
Da solidão de quem fica,
Puxou o gatilho, a moça rica,
Para completar esta cena;

Hoje o Velho, num mausoléu...
Descansa no fogo do inferno,
Sem saber que o amor é eterno,
E a morte não justifica,
Negro Juca e a moça rica...
Embora os olhos não alcancem,
Seguiram com seu romance,
Da triste história que fica.

FIM.
___________________________________

A Flor e a Pedra


Um ramalhete de flores,
Já secas pelo relento...
Só um gemido de vento,
Latejando na pedra fria,
Rolam duas lágrimas vazias,
Entre orações e perguntas...
Há duas Mãos que se juntam,
Clamando a fé dos seus dias;

Na lápide, a simples inscrição,
Carregada de peso e dor:
- "Aqui jaz, Maria Flor",
Flor mais nova de outra Maria,
Que viu a sua vida vazia...
Perdida pelas distâncias,
Afogada na dor da lembrança,
Que vai matando os seus dias;

No rancho de chão batido,
De pau a pique e santa fé,
Dona Maria e seu José...
Tropeavam sonhos na cara,
Quando o pensamento dispara,
Vendo aquela menina sapeca...
Brincando com sua boneca,
E as pedrinhas que juntara;

No seu mundo imaginário,
Criado a sombra do arvoredo,
Maria Flor contava segredos,
Nos seus brinquedos de criança,
Sem se importar com a distância,
Que um dia, ao tempo descobre...
Nos sonhos da menina pobre...
Só o que recebera de herança;

E as pedras foram as parceiras,
Para os brinquedos imaginários,
De pedras fazia rosários...
Para as orações à tardinha,
E quando se sentia sozinha...
Polindo sonhos, inocentes,
As pedras estavam presentes,
Pelas fortunas que tinha!

Quando a Mãe ia pra sanga,
Lavando roupa pra fora...
Maria Flor não via a hora,
De chegar junto a barranca,
Juntando pedrinhas brancas,
De tons e formas diferentes,
Umas com imagens de gente,
Outras com imagens de Santa;

Jogava seus sonhos na água,
No mergulhar das marrequinhas,
E em cada pedra que tinha...
Guardando mais que desejo,
Que ela trocava por beijos,
Na sua inocência de criança,
Guardadas, como lembrança,
De algum mascate, andejo;

Maria flor se fez moça...
E os sonhos cresceram mais,
Vendo o mundo do Pais...
Tão pequeno e tão sofrido,
Talvez não tenha entendido,
Num coração sem maldade,
Que há um mundo de falsidade,
Num outro mundo esquecido;

Buscou o rumo do povo...
Dos arranha-céus, da cidade,
Lá onde os olhos da maldade,
Rondam pessoas carentes...
Trazendo sonhos, inocentes,
Enfeitados em cenas de novelas,
O tempo foi mostrando a ela...
Um mundo que não é pra gente;

Conheceu o mundo dos livros!
Conheceu amigos no colégio,
Conheceu alguns privilégios...
Deste mundo abarbarado,
Que, às vezes, cobra dobrado,
O que a vida nos dá de esmola,
Buscando na porta da escola,
O Inocente à ser condenado!

Pois a curiosidade é mais forte,
Na vida maula que medra...
Diante da primeira pedra,
Do primeiro fio de fumaça,
E a droga exposta de graça,
Dizimando corpos inteiros,
Terminando sonhos derradeiros,
Pelos cemitérios das praças;

Maria flor conheceu a pedra,
Mas não aquelas que queria,
Viu que sonho e rebeldia...
Não são filhos da mesma sorte,
A droga sempre é mais forte...
Corroendo mentes vazias...
E deixando almas sombrias,
Inertes ao lâmina da morte;

E a Mãe que, hoje, chora...
Sobre uma lápide de pedra,
Há meses que não arreda...
Junto ao túmulo da filha...
Olhar triste, nem brilha,
No peito um talho, de dor...
Mirando a Pedra e a flor,
O que restou de uma família!

FIM



________________________________


INSANO

Às vezes me paro sem saber quem sou...
Fugindo da sombra que me persegue,
De olhos esbugalhados,
eu vejo àquilo que ninguém vê...
Que ninguém consegue!
E busco na elucides dos dias...
Os dias que já foram embora;

Porque o que vejo, o que sinto,
Não está escrito em livros atuais,
Nem nas lápides frias que enfeitam
as memórias tolas e desumanas...

Uns dizem que sou louco!
Outros me olham com desleixo,
E há tantos que nem me olham,
Porque o que falo não entendem,
O que vejo, não enxergam...
O que busco não compreendem,
E o que sou, eles não sabem!

Meu refúgio são as letras...
Minha casa são os livros,
O meu mundo é bem maior,
E não tem tempo, para o tempo,
Não é marcado por hora...
Não se conhecem os dias.

Para mim o que vale é viver,
É ver a beleza da noite...
O brilho das estrelas,
O encanto do mar, do céu;
É amar sem cobrar...
É doar sem pedir,
É alimentar sem ter fome,
É viver para viver...
Sonhar, compreender, sorrir!

Às vezes, me paro sem saber quem sou!
Mas o que importa o meu ser...
No meio de tantos que vão e vem?
Sou mais um perdido na multidão;
Tão longe de mim, tão perto do nada,
Há àqueles que me veem e fingem que
não me veem...
Há outros que veem e nem querem ver,
E todos passam e a vida passa e o
tempo passa, mas eu fico...
Fico na minha elucides!

Porque elucides é fuga...
É distância da distância...
É solidão rodeada de gente,
É um mundo indiferente,
Sem portas, nem janelas,
É casa sem teto...
É vida sem vida...
É apenas um espaço onde
cabe apenas um...
Eu!

Fim
_______________________________
As Mãos do meu Avô

As mãos do meu avô eram grandes,
Com dedos em formas de garras...
Enrijecidas na parte adunca dos calos,
Desenhavam os mapas da vida...
Pelas linhas profundas de um M,
Que pareciam sangas já secas,
Transbordadas em outras enchentes;

As mãos do meu avô eram abrigo,
Quando embalava os meus sonhos,
Cantarolando com a sua voz rouca,
Cantigas que ainda trago na alma,
E olhando no verde dos meus olhos,
Balbuciava as frases mais ternas,
Com palavras tão doces e tão suas,
Que ainda me sinto o mesmo piá...
Choramingando para ter seu colo;

Quando dos meus primeiros passos,
Cambaleando as pernas tortas,
Buscava encontrar as suas mãos...
Para me segurar dos tombos;
E aquele sorriso esbugalhado,
Sulcados por grandes vergas...
Que desenhavam a fronte séria,
De uma barba branca e rala;

E depois... Já piazote taludo...
Quando encilhava um petiço,
E saíamos a recorrer os campos,
Refazer as cercas, juntar o gado;
E aquelas mãos grandes e fartas,
Se agigantavam no cabo do arado,
Abrindo vergas no coice do tempo,
Socando terra nos buracos da vida;

As mesmas mãos que torciam arames,
Sustentavam touros no golpe do laço...
Torciam atilhos na cabeças da tramas,
Sofrenavam potros só com tento e crina...
Ponteavam milongas no braço do pinho,
Acariciavam as cuias nas horas do mates,
Me afagava os sonhos na hora do sono,
E juntavam-se em reza na oração da fé!
   
Sei que o tempo é campo deserto...
Por onde passamos para deixar marcas,
E as dores são mãos que apontam o rumo,
Que por vezes, nos chicoteiam...
Quando nos perdemos nas manhas da vida,
Sem querer buscar o caminho certo;

Assim eram as mãos do meu avô!.
O equilíbrio para os meus passos falsos,
O abrigo para os tempos de invernia,
A carícia para as horas tristes da dor;
Ágeis pelo pontear das cordas...
Rudes e fortes no apontar dos dedos,
Leves e brandas no afagar do sono,
Amiga e parceira no apertar do adeus;

A vida por si não contempla lamentos,
E nos dá a certeza que o tempo se foi,
E o que fica do tempo, além dos sonhos,
São apenas imagens a elucidar a alma;
E um dia as mãos que me deram afago...
Que foram carinho nas horas da dor,
Se postaram inertes, tão juntas e tão só,
Sobre um corpo estirado quieto e frio;

No olhar de quem fica, marejado de dor,
O silêncio é castigo (rebenque que bate),
E o coração apertado na ânsia mais terna,
Sufoca as lembranças em fotos amarelas;
E parte sem adeus, sem mãos abanando,
Talvez o encontrarei num tempo depois,
Ficou escondido em cada palmo de campo,
O que o tempo e a vida guardou de nós dois;

Fim
_______________________________
Reflexões de um campeiro só

A madrugada boceja versos,
Na goela farta dos ventos...
Retrucando os sentimentos,
Que madrugaram comigo...
"Cosas" de um tempo antigo,
Que vão se apagando na memória,
Um dia, talvez, serão estórias,
Pra serem contadas aos amigos;

Os mates não são os mesmos,
A erva já perdeu o gosto...
E as rugas fartas de um rosto,
Faz  o tempo não ter pena,
E a vida cruel nos condena...
Há um tempo de reflexão,
Onde os momentos de solidão,
São potros que a gente enfrena;

Já tive cismas de andejo...
E já andei por muitas distâncias,
Talvez, sem dar a importância,
Pois tudo é perto ao campeiro,
Quando um coração caborteiro,
Pateia dentro de um peito...
Qualquer horizonte é estreito,
Pra que tem alma de fronteiro;

As tropas sumiram ao longe...
Num grito de eira boi,
E o tempo bom que se foi,
Ficou perdido pela evolução,
Onde o poder e a razão...
Vão ditando normas e regras,
Que até o mais rude se entrega,
Meio de cabresto na mão;

Às vezes... fico cismado!
Com minha própria indagação,
E busco na fé de um galpão,
Meu templo, santo e sagrado,
Num terço bem caprichado...
Vou relatando meu calvário,
Tendo as esporas de rosário,
E o Criador ao meu lado!

Porque que a vida é assim?
Porque que a idade se aporreia?
E vai nos prendendo em maneias,
Com trança de oito tentos...
Só não prende os sentimentos,
Que a alma guarda de jeito,
Pra um dia repontar do peito,
Como nuvens no firmamento;

Sei que o mundo lá fora é outro!
E a vida, hoje, tem pressa!...
Ninguém sabe como começa,
Nem tão pouco quando termina!
O que a natureza nos ensina,
Ninguém consegue aprender,
Se há cada dia, há mais ser...
Morrendo pelas esquinas;

Me tiraram o pingo e o arreio,
Porque a idade me afronta...
Mas não estão se dando conta,
Que a morte é a própria solidão,
Ficou-me o silêncio, a reflexão,
E as madrugadas por regalo...
Pois um campeiro sem cavalo,
É um corpo sem coração;

Então não me resta mais nada,
Já me condenaram ao  fim...
Pois todos olham pra mim,
Com olhos esbugalhados...
Mas esquecem que no passado,
Enfrentei a ira dos tiranos...
E corri com os castelhanos,
Que se adonavam do estado.

Mas isso pouco importa...
Herdaram uma Pátria livre,
E há cada um que aqui vive,
Ficou um pedaço de chão...
Faça uma breve reflexão,
Antes do corpo virar pó...
Não deixe um campeiro só,
Antes de fechar o caixão;

Fim






6 comentários:

faty barao disse...

amei demais as poesias abraço

Emerson disse...

Buenas as poesias mas qual é o nome dos autores das poesias!?......

HELENA FONTANA disse...

ESTOU VIAJANDO PELO TEU BLOG, COM TANTAS INFORMAÇÕES VOU LEVAR ALGUNS DIAS. E COM A MÚSICA DA TERRA GAÚCHA. UM ABRAÇO, ESTOU COMPARTILHANDO.

Paulo Ricardo Costa disse...

Obrigado... Abraço

Paulo Ricardo Costa disse...

Obrigado!

Anónimo disse...

To aquí no Mexico disfrutando do seu conteúdo. Parabens!

Enviar um comentário